Ladrões de Bicicletas

Ladri di Biciclette
Produzioni De Sica
Itália, 1948, 93 min, drama
Realizador:Vittorio De Sica
Argumento: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Suso Cecchi d’Amico, Oreste Biancoli, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri; baseado no romance de Luigi Bartolini
Actores:Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari

Antonio Ricci e o seu filho percorrem a cidade de Roma à procura da sua bicicleta, que foi roubada e de que necessita para trabalhar.

Segundo filme da trilogia neo-realista de Vittorio de Sica (os restantes são Sciuscia (1946) e Umberto D. (1952), Ladrões de Bicicletas é considerado o expoente máximo do movimento e resulta da colaboração entre o realizador e o argumentista Cesare Zavattini, um dos principais mentores do neo-realismo italiano. Zavattini apresentou o romance homónimo de Luigi Bartolini a De Sica e os dois viram nele a base para mais uma obra sobre a realidade italiana. De todas as adaptações do romance, nenhuma foi tão “desrespeitadora” em relação ao original como a de De Sica e Zavattini, tendo realizador e argumentista transformado a obra numa odisseia carregada de metáforas, em que a bicicleta é o “veiculo” para organizar a narrativa.

O financiamento de Ladrões de Bicicletas revelou-se difícil, particularmente após o falhanço comercial de Sciuscia. Uma das possibilidades de financiamento veio do produtor norte-americano David O. Selznick (E Tudo o Vento Levou), mas na condição de que o protagonista fosse interpretado por… Cary Grant! De Sica não aceitou e eventualmente conseguiu financiamento em Itália, dando, então, inicio ao casting do filme.

Seguindo as regras do neo-realismo, De Sica utilizou actores não profissionais no filme e organizou um grande casting para encontrar os seus protagonistas. No entanto, estes foram descobertos por acaso: Lamberto Maggiorani, que interpreta a personagem de Antonio Ricci, foi descoberto quando acompanhava os seus dois filhos ao casting para o personagem de Bruno Ricci e Enzo Staiola foi descoberto entre a multidão, que assistia ao primeiro dia de filmagens, nas ruas de Roma. Embora não tivessem nenhuma experiência como actores, Maggiorani e Staiola têm excelentes interpretações, muito devido às indicações do realizador, que contou com a sua experiência de actor (De Sica iniciou a sua carreira cinematográfica como ídolo de matines) para “moldar” os seus protagonistas.

Ao contrário do que seria de esperar, a rodagem de Ladrões de Bicicletas foi bastante elaborada e envolveu uma considerável equipa de profissionais. O generoso orçamento permitiu cenas em grande escala, centenas de figurantes e até o equipamento necessário para produzir chuva artificial. Como exemplo, refira-se que uma das principais cenas do filme (o roubo da bicicleta) envolveu seis câmaras a filmarem simultaneamente. Esta grandeza e planeamento “chocavam”, de acordo com alguns críticos, com os princípios de verdade do neo-realismo. No entanto, o movimento não defendia a falta de argumento ou estilo, bem pelo contrário.

Muito embora, De Sica se revele um extraordinário e inventivo realizador, fazendo de Ladrões de Bicicletas um filme completamente oposto ao de uma produção de Hollywood, a verdade é que as maiores influências do realizador são americanas: King Vidor e Charlie Chaplin. Essa influência deve-se ao recorrente tema da classe trabalhadora, que percorre a filmografia de ambos os realizadores americanos. É visível a influência de ambos no trabalho de De Sica e o trabalho deste, em particular Ladrões de Bicicletas, é uma homenagem a eles, nomeadamente a Chaplin, que era também um confesso admirador do realizador italiano.

Com Ladrões de Bicicletas e a filosofia neo-realista, De Sica propôs-se fazer um dos melhores filmes do mundo à época, mas o público e a crítica italiana não aceitaram bem o filme, criticando a visão pessimista do realizador. No entanto, o filme foi aclamado internacionalmente, tendo ganho um Óscar honorífico para melhor filme estrangeiro e foi eleito, em 1952, o melhor filme de todos os tempos, na primeira sondagem internacional da conhecida revista britânica Sight & Sound. A sondagem é realizada a cada dez anos e desde então Ladrões de Bicicletas é presença regular na listagem. O sucesso internacional fez com que o filme fosse distribuído uma segunda vez em Itália, mas, mais uma vez, revelou-se um fracasso.

Expoente máximo do neo-realismo, Ladrões de Bicicletas é muito mais do que o movimento e a época em que se enquadra, revelando qualidades e uma frescura, ainda hoje, que o elevam e fazem dele uma referência na história da sétima arte.

Neo-Realismo Italiano

Movimento cinematográfico com preocupações humanistas, que nasceu do anti-fascismo do pós II Guerra Mundial em Itália e que, muito embora o seu curto período de existência (1943-1952), influenciou o cinema italiano e mundial.

Marcada pela ditadura de Benito Mussolini nas décadas anteriores, a Itália do pós guerra era um país devastado, com uma economia em grandes dificuldades e que sentia a difícil transição da agricultura para a indústria. Esta realidade estava longe do cinema italiano, quer das produções nacionais, que se resumiam a histórias fantasiosas e irreais, quer devido às produções de Hollywood, que inundavam o país. Neste contexto, os neo-realistas reclamavam que o cinema devia “ver” e analisar a realidade, mostrando a vida italiana sem embelezamento. A filosofia do neo-realismo, cujas fundações foram estabelecidas pelo poeta e argumentista Cesare Zavattini, tinha, assim, uma clara preocupação humanista, onde se enfatizava a vida real e o espírito colectivo.

De forma a realçar a sua filosofia, o cinema neo-realista recorria a actores não profissionais e a um estilo cinematográfico muito perto do documentário e era completamente o oposto do cinema de Hollywood. No entanto, este foi, a par dos filmes de Jean Renoir e de Alessandro Blassetti, uma das influências do movimento: não só nos movimentos de câmara, mas também na luz, onde o film noir é a referência.

Com a melhoria das condições económicas e com uma realidade já bem diferente do pós guerra, o neo-realismo começou a perder folgo na década de 50. Embora tenha durado apenas 9 anos, o movimento alterou profundamente o cinema italiano e mundial, tendo influenciado realizadores e mesmo outros movimentos como a Nouvelle Vague francesa ou o Dogma 95 dinamarquês. Muito embora o seu contexto histórico, os filmes do neo-realismo valem por si próprios e perduram na memória cinéfila mundial, como se pode comprovar pelos exemplos de Roma, Cidade Aberta (1945) de Roberto Rosselini, A Terra Treme (1948) de Luchino Visconti e a trilogia de Vittorio de Sica, composta por Sciuscia (1946), Ladrões de Bicicleta (1948), considerado o melhor exemplo do neo-realismo, e Umberto D. (1952).

Serial

Género cinematográfico em que cada história é apresentada em episódios de 20/30 minutos cada e eram exibidos semanalmente antes de um filme principal, de um filme B ou nas matines juvenis do fim-de-semana. Com um orçamento baixo e recorrendo a imagens de arquivo, o serial tinha um argumento simples, mas com características bem definidas, em que cada episódio terminava num momento crucial (cliffhanger), que deixava o espectador na expectativa para a semana seguinte.

A origem do serial remonta à primeira década do século XX, quando a Edison Company produziu, em 1912, What Happened to Mary. Numa prática comum na época, a história foi serializada em simultâneo no cinema e numa revista, tendo a adaptação cinematográfica o objectivo de promover a revista. Em 1914, o cliffhanger surge pela primeira vez neste género cinematográfico e nesse mesmo ano The Perils of Pauline é o primeiro serial a alcançar sucesso internacional. Este sucesso levou ao aumento da produção do serial, quer nos Estados Unidos, quer na Europa, em particular em França e na Alemanha.

Na sua maioria dramas, “salpicados” com aventura e acção, os serials do cinema mudo eram, na sua maioria, protagonizados por mulheres e dirigidos a todo o tipo de audiência, incluindo adultos. O advento do som transformou por completo a produção deste género cinematográfico, com muitas produtoras a desistirem da sua produção devido aos altos custos do som. Neste cenário, os serials que eram produzidos nessa época passaram a ter como destinatários principais as crianças e eram exibidos isoladamente nas matines de fim-de-semana. Destinados a um público completamente diferente do da época do cinema mudo, estes “novos” serials eram essencialmente filmes de acção ou aventura, em que o herói era masculino e as mulheres meros objectos que aquele tinha de salvar. Reflectindo os gostos dos jovens na época, as histórias eram, para além dos westerns recorrentes, baseados em personagens de banda desenhada. Assim se explica o sucesso de histórias como Flash Gordon, Dick Tracy, Buck Rogers, Batman, Captain America, Secret Agent X-9, entre outros.

Na década de 30, a produção de serials em Hollywood era dominada pela Universal, pela Columbia e pela Mascot, estúdios que desenvolveram eficientes técnicas de produção de forma a manter os custos controlados e conseguir rentabilizar ao máximo este género cinematográfico. O aparecimento da Republic Pictures, em 1935, que resultou da fusão de diversas empresas, entre elas a Mascot, veio dar um novo alento à produção de serials, com este estúdio a constituir-se numa referência no género e a ajudar a tornar esta década no período de ouro do género.

Embora nunca tivesse tido um sucesso como o de Flash Gordon da Universal, a Republic Pictures conseguiu sempre manter uma consistente e interessante produção de serials, tendo ao seu serviço os melhores duplos e o melhor departamento de efeitos especiais de Hollywood. Para além disso, o estúdio contava ainda com o serviço de dois dos melhores realizadores de acção: William Witney e John English. Com todos estes ingredientes, a Republic conseguiu produzir com sucesso dezenas de serials, que ainda hoje são recordados e serviram de inspiração a Steven Spielberg e George Lucas para os seus filmes “Indiana Jones” e “Guerra das Estrelas”, respectivamente.

Muito embora a introdução de novos personagens, os serials começavam a tornar-se repetitivos e com os crescentes custos de produção a sua qualidade era cada vez menor. O final da II Guerra Mundial e o aparecimento da televisão vieram acentuar o declínio do género e levou mesmo a Universal a desistir da produção deste género cinematográfico em 1946. Os estúdios que mantiveram a sua produção faziam-no cada vez mais à base de imagens de arquivo e com uma notória falta de qualidade e frescura. Reflexo desta crise é o facto de, em 1955, a maioria das salas de cinema que exibiam serials (salas de 2ª linha ou no interior dos Estados Unidos) terem desaparecido. O abandono da produção cinematográfica por parte da Republic Pictures, para se dedicar em exclusivo à produção televisiva veio dar o golpe final neste género cinematográfico. Neste contexto, a Columbia revelou-se o grande resistente, mas acabou por produzir o último serial da história do cinema em 1956: Blazing the Overland Trail.

Muito embora o final da produção de serials, o género manteve-se vivo graças à televisão, quer através da exibição das antigas produções de Hollywood, quer através das séries produzidas para televisão, que adoptaram os conceitos do género, incluindo o cliffhanger. Este novo contexto permitiu que uma nova geração de fans descobrisse este género cinematográfico e o fizesse perdurar na memória colectiva.

The Story of the Kelly Gang

Johnson & Gibson
Aus, 1906, 60 min, drama
Realizador: Charles Tait
Argumento: Charles Tait
Actores: Elizabeth Tait, John Tait, Norman Campbell, Bella Cola, Will Coyne, Sam Crewes

Dramatização da vida do bandido australiano Ned Kelly, que viveu entre 1855 e 1880.

Com uma duração de 60 minutos (6 bobines) aquando da sua estreia, a 26 de Dezembro de 1906, The Story of the Kelly Gang fica na história como a primeira longa-metragem do cinema, assim como o primeiro filme narrativo da Austrália.

Infelizmente, actualmente já não é possível ver o filme na sua totalidade, já que apenas chegaram aos nossos dias cerca de 18 minutos de película. A identificação do filme torna-se ainda mais difícil pelo facto de terem existido diversas versões, com cenas a serem acrescentadas nos anos seguintes à da estreia e que actualmente apenas existem fotografias. Até à década de 70, o filme esteve dado como completamente perdido e só a descoberta, em meados da década, de imagens e parte da película original permitiram o restauro da película, que exibida à velocidade original de 18 fotogramas por segundo se traduz em 18 minutos de filme.

A nível da sua produção pode se considerar The Story of the Kelly Gang um filme familiar, já que foi concebido pelo clã Tait, uma conhecida família de artistas de Melborne, que produziu, escreveu, realizou e interpretou o filme, tendo também utilizado diversas propriedades da família para a rodagem de interiores e exteriores. Para além da família Tait, o filme foi também produzido por dois químicos, Millard Johnson e William Gibson, que sabiam filmar e revelar película, tendo o primeiro sido o operador de câmara e o segundo o responsável pelo trabalho de laboratório.

Muito embora a sua técnica básica (praticamente não existe close-ups e muito menos se pode falar de montagem), The Story of the Kelly Gang foi um sucesso de público, tendo estado em distribuição durante 10 anos (nas suas diferentes versões) e dado origem ao filão de filmes de bandidos na Austrália.

Devido à sua importância histórica, The Story of the Kelly Gang foi, em 2007, incluindo no Programa “Memória do Mundo” da UNESCO e editado em DVD nesse mesmo ano, após o seu restauro pelo Arquivo Nacional do Filme e Som da Austrália.