A história da 20th Century Fox, no seu 75º aniversário

A Viúva Alegre

The Merry Widow
Metro-Goldwyn-Mayer
Estados Unidos, 1934, 99 min., musical
Realizador: Ernst Lubitsch
Argumento: Ernest Vajda e Samson Raphaelson
Actores: Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald, Edward Everett Horton, Una Merkel, George Barbier

O Conde de um pequeno reino europeu corteja uma viúva com o objectivo de manter o seu dinheiro no país.

A Viúva Alegre é uma adaptação cinematográfica da ópera “Die Lustige Witwe” (A Viúva Alegre) de Franz Lehár, estreada em Viena em Dezembro de 1907. A ópera revelou-se um sucesso logo na estreia e a sua popularidade atravessou fronteiras, com inúmeras produções piratas, que tornaram os direitos da obra um verdadeiro imbróglio legal.

O sucesso da ópera chamou, naturalmente, a atenção de Hollywood e a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) adquiriu os seus direitos cinematográficos em 1923, tendo produzido uma extravagante versão muda em 1925, realizada por Erich von Stroheim. Com o advento do cinema sonoro, a MGM viu com bons olhos uma versão musical da obra de Lehár, mas o tribunal decidiu que o estúdio não detinha os direitos cinematográficos da obra para produzir uma versão sonora: a justificação do tribunal foi que os filmes sonoros não eram obras cinematográficas! A MGM decidiu, então, comprar novamente os direitos a Lehár, onde se incluíam a música original de Ludwing Doblinger, que era diferente da música que acompanhava as versões Inglesa e Americana da ópera. Devido a processos judiciais anteriores, referentes à versão de 1925, e pelo facto de Stroheim reclamar a autoria de aspectos específicos do argumento dessa versão, a MGM decidiu adiar a produção da versão sonora de A Viúva Alegre.

Quando as questões legais ficaram resolvidas, a MGM avançou, então, para a produção do filme, com Ernst Lubitsch como realizador. Para protagonistas, o estúdio escolheu Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, estrelas da rival Paramount Pictures e que foram aliciadas pela MGM precisamente com a produção de A Viúva Alegre. Ao contrário de Jeanette MacDonald, Chevalier era uma estrela internacional e não pretendia voltar a contracenar com a actriz com quem tinha trabalhado três vezes na Paramount. O seu desejo era contracenar com Grace Moore, uma famosa cantora de ópera, cuja primeira tentativa como actriz em Hollywood se revelou um verdadeiro fracasso e tentava um regresso em grande à MGM. Moore acabou por assinar contracto com a Columbia Pictures, onde protagonizou o projecto rival Uma Noite de Amor e, assim, Jeanette MacDonald voltou a contracenar ao lado de Chevalier. Embora a animosidade existente entre ambos, as suas interpretações são excelentes, muito devido ao trabalho de Ernst Lubitsch, que dá o seu toque pessoal ao filme e o torna num vivo e sofisticado musical.

A reacção a A Viúva Alegre foi inicialmente boa, com os críticos a gostarem do filme e a ser galardoado com o Óscar de melhor direcção de arte. No entanto, o filme pareceu antiquado aos olhos do público, fascinado pelos musicais da dupla Fred Astaire e Ginger Rogers e pelos espectáculos de Busby Berkeley, e nem o mercado europeu conseguiu fazer com que a MGM recuperasse o seu investimento de um milhão e seiscentos mil dólares.

Como era prática corrente na época, a MGM produziu diversas versões de A Viúva Alegre, mais concretamente para os mercados Norte-americano, Inglês, Belga e Francês. As diversas versões pouco diferem entre si, sendo apenas realçadas ou omitidas as críticas à monarquia, de acordo com o respectivo mercado. A versão francesa, intitulada La Veuve Joyeuse encontra-se perdida.

Em 1952, a MGM volta a produzir uma nova versão de A Viúva Alegre, em Technicolor e com Fernando Lamas e Lana Turner como protagonistas. Esta versão, ao contrário da de 1934, foi mal recebida pela crítica, mas foi um sucesso de bilheteira. Para não ser confundida com esta última versão, A Viúva Alegre, de Ernst Lubitsch, foi renomeada, aquando da sua estreia na televisão americana, para The Lady Dances.

Viva Villa!

Viva Villa!
Metro-Goldwyn-Mayer
Estados Unidos, 1934, 115 min., drama
Realizador: Jack Conway
Argumento: Ben Hecht, baseado no livro de Edgecumb Pinchon e O.B. Stade
Actores: Wallace Beery, Leo Carrillo, Fay Wray, Donald Cook, Stuart Erwin

Pancho Villa, um bandido, junta-se a Francisco Madero, um rebelde, na luta contra o Presidente Mexicano Porfirio Diaz.

Produzido pelo conhecido David O. Selznick (E Tudo o Vento Levou), Viva Villa! é uma versão “hollywoodesca” de um dos maiores herois nacionais mexicanos, cuja produção atribulada é tanto ou mais conhecida que o próprio filme.

Os problemas que assombraram a produção do filme foram muitos e potenciados pela rodagem em território mexicano. Desde logo, o Governo mexicano considerou uma afronta o facto de Hollywood produzir um filme sobre um dos seus herois. Para acalmar os animos, a Metro-Goldwyn-Mayer acedeu a negociar o argumento e suafizou a imagem de Pancho Villa. Outro problema foi a utilização de habitantes locais como figurantes, que criaram inumeros conflictos e um acabou por se suicidar após ter batido com o carro contra uma cerca.

Mas não foram apenas os locais a criar problemas: Lee Tracy, um dos actores contractados e conhecido pelas suas bebedeiras, provocou os habitantes locais e insultou o povo mexicano durante uma festa local. O actor teve de abandonar o país clandestinamente e Selznick viu-se obrigado despedi-lo e a escrever uma carta de desculpas ao Governo mexicano. O despedimento de Tracy originou, por sua vez, um conflito entre Louis B. Mayer, patrão da MGM, e Howard Hawks, o primeiro realizador do filme que acabou por abandonar o filme.

Com a saida de Hawks, Viva Villa! teve de ser praticamente todo rodado de novo, desta vez com Jack Conway como realizador. Até hoje, desconhece-se o contributo de Hawks para o resultado final, até porque diversas bobines de filme foram destruidas num acidente de avião. No entanto, ao longo do filme, é possível destinguir determinadas cenas que têm a marca de Hawks. Para além disso, sabe-se que o realizador pretendia que Viva Villa! fosse uma sátira ao drama histórico, mas o resultado final está longe disso. Aliás, Viva Villa! é uma amalgama confusa, agravada pela opção do estúdio de entregar a personagem principal a Wallace Beery (O Campeão), actor mais conhecido pelos seus personagens estravagantes, que é como surge o “seu” Pancho Villa. Para piorar a situação, a MGM não contratou nenhum actor hispanico, o que tira ainda mais verossimilhança à “restituição histórica”.

Muito embora todos os seus problemas (à frente e atrás das camaras), Viva Villa! foi um dos sucessos de bilheteira de 1934 e foi nomeado para quatro Óscares, incluindo o de melhor filme, tendo apenas ganho o de melhor assistente de realização, categoria que apenas existiu entre 1933 e 1937.

A Mulher Miraculosa

The Miracle Woman
Columbia Pictures
Estados Unidos, 1931, 91 min., drama
Realizador: Frank Capra
Argumento: Jo Swerling, baseado na peça Bless You Sister, de John Meehan e Robert Riskin
Actores: Barbara Stanwyck, David Manners, Sam Hardy, Beryl Mercer, Russell Hopton

Após a morte do seu pai, um padre que estava prestes a ser substituído na sua paróquia, uma jovem mulher torna-se numa evangelista de sucesso, incerta da sua crença.

Nos Estados Unidos, os anos 20, foram férteis em charlatães religiosos, potenciados pela I Guerra Mundial. De todos os “líderes religiosos” que surgiram nessa época, o mais famoso foi a Irmã Aimee McPherson, que, com o seu grupo de gospel Four Square, levava milhares de pessoas ao seu templo em Los Angeles, para assistir a um espectáculo religioso cheio de efeitos especiais e “milagres”.

A história de A Mulher Miraculosa é precisamente inspirada na vida de Aimee McPherson, personagem interpretada por Barbara Stanwynck e que aqui tem a sua segunda, de cinco colaborações com o realizador Frank Capra, que a tornou numa estrela em A Flor dos Meus Sonhos (1930). Muito embora a excelente interpretação da actriz, A Mulher Miraculosa foi um fracasso de bilheteira, não só pelo seu tema controverso, mas porque é um drama pouco optimista, precisamente o oposto dos filmes que Capra veio a realizar e que o tornaram popular (por exemplo, Do Céu Caiu uma Estrela).

O Grande Amor da Minha Vida

An Affair to Remember
20th Century-Fox
Estados Unidos, 1957, 119 min., romance
Realizador: Leo McCarey
Argumento: Leo McCarey e Delmer Daves, baseado na história de Leo McCarey e Mildred Cram
Actores: Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning, Neva Patterson, Cathleen Nesbitt

Um casal, ambos comprometidos, apaixonam-se durante um cruzeiro e prometem encontrar-se seis meses depois, no topo do Empire State Building, em Nova Iorque.

Nos anos 50, a carreira de Leo McCarey atravessava um momento difícil devido ao fracasso do seu filme anticomunista My Son John (1952) e o realizador decidiu, então, regressar à história que muitos consideravam o seu melhor trabalho: Ele e Ela, realizado em 1939. Para o ajudar a escrever o novo argumento, McCarey voltou a contar com os argumentistas da versão de 1939: Donald Ogder Stewart, um dos Dez de Hollywood e cujo contributo não foi creditado, e Delmer Daves.

O Grande Amor da Minha Vida é o segundo dos três filmes em que Cary Grant e Debora Kerr trabalharam juntos e o de maior sucesso de todos. No entanto, a actriz não foi a primeira escolha do realizador (a sua preferida era Ingrid Bergman), mas o sucesso de O Rei e Eu (1956), onde a actriz canta, levou a que fosse escolhida e, inclusive, fez com que a sua personagem em O Grande Amor da Minha Vida fosse também uma cantora.

Para protagonista masculino, McCarey pretendia um actor de comédia para enfatizar as cenas cómicas do filme e Grant foi a primeira escolha do realizador para a personagem. No entanto, Grant teve algumas reticências em interpretar um personagem anteriormente interpretado com sucesso por Charles Boyer, mas o actor acabou por aceitar o trabalho, porque queria trabalhar com Kerr e com McCarey, com quem tinha trabalhado em Com a Verdade me Enganas. O Grande Amor da Minha Vida marca, assim, o regresso de Grant ao grande ecrã, depois de uma ausência de dois anos após Ladrão de Casaca (1955).

A rodagem de O Grande Amor da Minha Vida decorreu, na sua maioria, nos estúdios da 20th Century-Fox, em Hollywood, e num ambiente de grande harmonia, propicio à improvisação dos actores, uma técnica que McCarey incentivava. Embora o estúdio desejasse que o título do filme fosse o da primeira versão (inclusive Love Affair era a designação utilizada durante a sua produção) a Fox viu-se obrigada a alterar o título para An Affair to Remember, porque a Columbia Pictures detinha os direitos sobre o título Love Affair.

Com perto de 4 milhões de dólares de receitas, O Grande Amor da Minha Vida foi um dos sucessos de 1957 e revelou-se o último sucesso da carreira de McCarey, cuja carreira se iniciou na época do cinema mudo, escrevendo e realizando comédias para Hal Roach. Quanto a Kerr, que também protagonizou outro filme de sucesso em 1957 (O Espírito e a Carne), tornou-se na actriz mais requisitada de Hollywood, sendo o filme um dos seus favoritos.

Muito embora o seu sucesso, O Grande Amor da Minha Vida apenas foi destingido com quatro nomeações dos Óscares, não tendo ganho nenhum. Actualmente, é considerado como o filme mais romântico da história do cinema e tem influenciado inúmeros outros filmes, com destaque para Sintonia de Amor (1993), cujo final é inspirado em O Grande Amor da Minha Vida e sedimentou a popularidade deste.

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