O Monstro do Espaço (1955)

Em 1955, a Hammer Films, ainda longe da fama que teria nas décadas de 1960 e 1970, adquiriu os direitos cinematográficos da série de seis episódios The Quatermass Experiment, que a BBC exibira dois anos antes com grande sucesso. A Hammer tentava, na época, encontrar o seu rumo e as expectativas que tinha para o filme não eram muitas. Aliás, o reduzido orçamento de 45 mil libras e a aposta num actor americano em decadência (Brian Donlevy) comprovam isso mesmo.

A escolha de Brian Donlevy para protagonista foi bastante contestada, inclusive pelo criador da série original, Nigel Kneale. Habituado a interpretar vilões, Brian Donlevy está longe da imagem de cientista lunático do original televisivo. No entanto, o filme é bastante diferente da produção da BBC e muito por culpa do realizador Val Guest. Em conjunto com o argumentista Richard H. Landau, Guest optou por uma abordagem completamente diferente do original e o resultado é um filme com mais acção e uma história mais realista. Neste contexto, a interpretação de Brian Donlevy não desilude, mas o verdadeiro “motor” de O Monstro do Espaço é Richard Wordsworth, cuja interpretação do condenado astronauta é de tal forma potente, que traz à memória a de Boris Karloff em Frankenstein.

Em 1951, a entidade de censura britânica introduziu a certificação X para filmes para adultos e O Monstro do Espaço assim foi classificado. A Hammer aproveitou o facto e alterou o títuto para The Quatermass Xperiment, de forma a atrair o público jovem. A estratégia resultou e O Monstro do Espaço foi um sucesso no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde o filme foi rebaptizado The Creeping Unknown. O sucesso do filme fez com que a Hammer encontrasse finalmente o seu rumo, com o estúdio a apostar em filmes de terror, género que tanto sucesso lhe viria a dar nas décadas seguintes.

Para além de ser um ponto de viragem da Hammer, O Monstro do Espaço tornar-se-ia também fundamental na cinematografia britânica: o certificado X deixou de ter uma conotação tão negativa e permitiu que o terror se tornasse num género comum na produção do país.

Como não poderia deixar de ser, o sucesso de O Monstro do Espaço deu origem às inevitáveis sequelas: duas delas produzidas pela Hammer Films [O Inimigo do Espaço, de 1957, e Quatermass and the Pit, de 1967)e uma pela Euston Films The Quartermass Conclusion, estreado em 1979.

The Quatermass Xperiment / The Creeping Unknown
Hammer Films. Reino Unido, 1955, 82 min., ficção-cientifica
Realizador: Val Guest. Argumento: Richard H. Landau e Val Guest, baseado na série de Nigel Kneale. Actores: Brian Donlevy, Jack Warner, Richard Wordsworth, Margia Dean, Thora Hird. Estreia em Portugal: informação não disponível

Uma nave espacial despenha-se nos arredores de Londres, dois dos seus tripulantes desapareceram e o terceiro está em estado catatónico.

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Couraçado Potemkin (1925)

Considerado uma das grandes obras da Sétima Arte, Couraçado Potemkin é um tributo do realizador Sergei Eisenstein aos marinheiros que, em 1905, se revoltaram contra os seus superiores e, assim, abriram caminho à Revolução Russa de 1917. Uma das grandes questões à volta do filme foi a sua veracidade histórica e muitos criticaram o filme de propaganda soviética. A verdade é que a informação disponível sobre os acontecimentos de 1905 é bastante confusa e uma análise mais cuidada permite constatar que o filme inclui os principais acontecimentos da revolta. Eisenstein, que utilizou um dos participantes no motim como conselheiro histórico e actor, dividiu o filme em cinco episódios, que correspondem, grande parte, aos actuais eventos de 1905.

Onde o filme mais se distancia da realidade é no final da história: o filme termina quando o couraçado passa pela frota russa que havia sido destacada para o abater, sem ser disparado um único tiro. No entanto, o episódio do motim só terminou verdadeiramente quando o couraçado se entregou às autoridades romenas. A opção de eisenstein pelo seu final deveu-se ao facto de o realizador querer que a história do Potemkin fosse vista como um “ensaio” para a revolução de 1917. Sem alterar os factos históricos, o realizador optou por um final moralizador, resultado da acção colectiva e que celebra o poder dos rebeldes. Para reforçar a sua visão, Eisenstein evita deliberadamente realçar qualquer tipo de drama pessoal, preferindo destacar o esforço colectivo e até o artilheiro Vakulinchuk é visto como um símbolo.

Eisenstein foi um dos rostos mais visíveis das teorias soviéticas da montagem e defendia que o impacto de um filme estava, não no desenrolar das imagens, mas na sua justaposição: a montagem devia ter como base o ritmo e não a história. A sequencia da escadaria Odessa, uma das mais miticas e imitadas da história do cinema, é um excelente exemplo das teorias do realizador e onde este as utiliza para “manipular” os espectadores: ao passar, por exemplo, do plano dos rostos amedrontados dos defesos cidadãos para as tropas em uniforme, Eisenstein cria no espectador uma antipatia contra o estado dos Czares.

A história da exibição do filme é tão rocambolesca como os próprios eventos que relata e foi mesmo banido em vários países, entre eles na Grã-Bretanha, onde foi considerado subversivo. Nos Estados Unidos, a sua exibição foi bastante restrita e uma das poucas exibições do filme ocorreu no apartamento da actriz Glória Swanson (O Crepúsculo dos Deuses), tendo sido projectado num dos lençóis de cetim da actriz, quando a falta de um ecrã quase desmobilizava a selecta audiência. Presente nessa secção estava David O. Selznick que considerou o filme um dos melhores alguma vez realizado e considerou que deveria ser visto pelos funcionários da Metro-Goldwyn-Mayer tal como um grupo de artistas estuda uma pintura de Rubens ou Van Gogh.

Couraçado Potemkin trouxe fama a Eisenstein e com ela a atenção das autoridades sobre a sua vida. Embora as restritivas condições de trabalho dos artistas soviéticos sempre tenham sido criticadas no ocidente, a verdade é que as experiências de Eisenstein em Hollywood e no México levaram-no a crises nervosas e prejudicaram a sua reputação. De regresso à União Soviética, onde imperava a politica social e onde as comédias de cariz popular inundavam as salas de cinema, o realizador dedicou grande parte do seu tempo ao ensino e à escrita, deixando um legado de grandes filmes, assim como documentos que fazem parte da história da sétima arte.

Durante muitos anos considerado como o melhor filme de todos os tempos, Couraçado Potemkin é, hoje, essencialmente uma referência histórica: pelos acontecimentos que relata, pelas circunstâncias em que foi produzido e, principalmente, pela linguagem inovadora (à época) que utiliza. Indispensável a todos quanto se interessam pela história da sétima arte.

Bronenosets Potyomkin
Goskino / Mosfilm. União Soviética, 1925, 75 min., drama
Realizador: Sergei Eisenstein. Argumento: Nina Agadzhanova e Sergei Eisenstein. Actores: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Mikhail Gomorov, Ivan Bobrov, Brodsky, Julia Eisenstein, Sergei M. Eisenstein

Em 1905, os tripulantes do barco de guerra Potemkin revoltam-se contra as condições deploráveis do navio, que provoca a revolta dos cidadãos contra o regime dos czares.

Com as Horas Contadas (1950)

Típico filme de série B, Com as Horas Contadas é um dos mais característicos film noir da história do cinema. Edmond O’Brien é a “grande” estrela do filme, que assenta numa história simples, mas intrigante e que tira o máximo partido dos (poucos) cenários que utiliza. A mais-valia do filme é realmente a sua história, que subverte por completo a fórmula em que se baseia (poucos são os filme em que o “detective” é a própria vitima), consegue preencher o ecrã com personagens interessantes e únicos e ainda nos consegue agarrar até ao fim.

Baseado no filme alemão Der Mann, Der Seinen Morder Sucht (1931), Com as Horas Contadas marca a estreia de Rudolph Maté como realizador, que manteve a premissa do original, mas utiliza toda a sua experiência como director de fotografia para dar uma visão ainda mais negra e caótica da sociedade. A primeira cena do filme é um dos melhores exemplos do trabalho do realizador, já que consegue agarrar o espectador como poucos: a vítima entra na esquadra de polícia e pergunta pela pessoa responsável, seguindo-se o diálogo:

​ Bigelow: “Quero participar um assassinato.”
​ Detective: “Quem é que foi assassinado?”
​ Bigelow: “Eu.”

A partir daqui, e já com o espectador “agarrado”, acompanhamos o relato dos acontecimentos, numa viagem por ambientes negros e povoada por personagens com segundas intenções, mas cheios de alma. As voltas e reviravoltas da história são as habituais, mas o previsível final consegue, mesmo assim, surpreender-nos, tal é a qualidade do material.

As características de Com as Horas Contadas faz com que se destaque entre os filmes do género e, considerando que estamos a falar de um filme de baixo orçamento, destinado a ser um complemento de sessões duplas, tudo isto se torna ainda mais surpreendente.

Devido a um erro na renovação dos direitos de autor, Com as Horas Contadas encontra-se no domínio público e pode vê-lo na Sala de Cinema.

D.O.A.
Cardinal Pictures. Estados Unidos, 1950, 87 min., thriller
Realizador: Rudolph Maté. Argumento: Russell Rouse e Clarence Greene. Actores: Edmond O’Brien, Pamela Britton, Luther Adler, Beverly Garland, Lynn Baggett, William ChingHenry Hart, Neville Brand.

Um empresário vai de férias até São Francisco e ai descobre que foi envenenado e que apenas tem um ou dois dias de vida.