Os grandes estúdios de hollywood

Desde os primórdios de Hollywood, no início do século passado, que a capital do cinema tem sido dominada pelos grandes estúdios de cinema. Columbia Pictures, Metro-Goldwyn-Mayer, Paramount Pictures, 20th Century Fox, Universal Pictures e Warner Bros. têm marcado a história do cinema com as suas produções: Conheça as histórias das majors de Hollywood e como têm influenciado a história do cinema.

Lista completa de estúdios e produtoras

The Great Train Robbery

Edison Manufacturing Company
Estados Unidos, 1903, 10m, western
Realizador: Edwin S. Porter
Argumento: Edwin S. Porter, baseado numa história de Scott Marble
Actores: George Barnes, John Manus Dougherty Sr., Tom London, A.C. Abadie, Gilbert M. ‘Broncho Billy’ Anderson

Um grupo de bandidos assalta um comboio e é perseguido por agentes de autoridade.

The Great Train Robbery é um dos grandes marcos da história da sétima arte, não só por ser o primeiro filme narrativo de sempre, mas também porque utiliza um conjunto de técnicas pioneiras que estabeleceram convenções cinematográfica ainda hoje utilizadas: movimentos de câmara, montagem paralela, cortes de forma a mostrar acções em locais diferentes, o uso de um boneco como “duplo”, entre outras. The Great Train Robbery é também o primeiro western do cinema e também aqui estabeleceu diversos standards como, por exemplo, os tiros que forçam uma pessoa a dançar, a perseguição a cavalo e o tiroteio final.

Realizado por um antigo operador de câmara de Thomas Edison, The Great Train Robbery foi filmado em Novembro de 1903 em diversos locais (nos estúdios de Edison em Nova Iorque, numa linha de comboio verdadeira e em Nova Jersey), o que constituiu uma novidade para a época. Utilizando actores não profissionais (alguns interpretaram diferentes personagens), The Great Train Robbery foi baseado numa história verídica de 1896, mas o filme utiliza o título de uma famosa peça da época, tendo-se revelado um verdadeiro sucesso comercial e, mais importante, estabeleceu o cinema como uma actividade comercial viável.

Como curiosidade refira-se que a cena final (um dos bandidos a disparar um revolver para o ecrã) tornou-se uma sensação na época já que o cinema era uma novidade e as pessoas ainda não compreendiam plenamente esta nova arte. Por isso, as pessoas reagiam à cena, primeiro, com medo e depois com alivio e até risos. A cena, que nada tem a ver com a história do filme, podia, de acordo com a Edison Manufacturing Company, ser utilizada no início ou no final do filme (ficava à consideração dos donos das salas de cinema), mas em praticamente todas as cópias existentes do filme a cena surge no final.

Considerado um acontecimento importante da história dos Estados Unidos, The Great Train Robbery é um os filmes preservados pela Biblioteca do Congresso Norte Americano, que tem à sua guarda, em perfeitas condições, os negativos originais do filme. O filme encontra-se no domínio público e poderá fazer o download a partir da página da Biblioteca do Congresso ou visioná-lo no YouTube.

Paris em Abril

April in Paris
Warner Bros.
EUA, 1952, 94m, musical
Realizador: David Butler
Argumento: Jack Rose e Melville Shavelson , baseado na história Girl from Paris
Actores: Doris Day, Ray Bolger, Claude Dauphin, Eve Miller, George Givot, Paul Harvey, Herbert Farjeon, Wilson Millar, Raymond Largay , John Alvin, Jack Lomas

Uma corista é escolhida, por engano, para representar os Estados Unidos num festival em França e o responsável pelo engano tenta resolver a confusão que dai advém.

Musical da Warner Bros. com Doris Day como cabeça de cartaz, que foi bem acolhido aquando da sua estreia em 1952, mas que não resistiu ao tempo e hoje é um filme menor, que só a presença da actriz consegue tornar interessante. Embora as canções não sejam das mais memoráveis, a que dá título ao filme (”April in Paris“) foi um dos sucessos da carreira da actriz/cantora.

New World Pictures

Distribuidora independente criada em 1970 por Roger Corman, conhecido produtor norte-americano de filmes de baixo orçamento.

Tendo ganho fama como produtor de filmes ultra baratos nos anos 50 e 60, em particular os distribuídos pela AIP, Corman criou a New World Pictures (NWP) para distribuir os seus próprios filmes e assim não pagar os elevados preços que as distribuidoras cobravam pela distribuição de filmes. Corman já antes tentara controlar o negócio da produção e distribuição, mas a Film Group, a primeira empresa que criou na década de 60, não teve muito sucesso e apenas durou alguns anos.

O sucesso da NWP assentou na produção de filmes de baixo orçamento e em géneros cinematográficos sensacionalistas (terror, blaxploitation, mulheres na prisão, filmes de enfermeiras, entre outros), onde a exploração da imagem da mulher era uma constante. Um dos melhores exemplos da “filosofia” da empresa foi precisamente o seu primeiro filme: The Student Nurses (1970) foi rodado em três semanas por $150 mil dólares e rendeu mais de $1 milhão. Muito embora o seu lado sensacionalista, os filmes da NWP sempre tiveram um lado femininista, já que as mulheres retratadas são, quase sempre, fortes e com uma presença dominadora. O que se passava à frente das câmaras reflectia o que se passava por detrás, uma vez que as mulheres sempre desempenharam um importante papel na empresa, marcaram presença, quer na sua estrutura organizativa, quer na realização dos filmes, algo pouco comum numa Hollywood dominada pelos sexo masculino.

Com esta “fórmula”, a NWP transformou-se na produtora de filmes B (termo que Corman não gostava) de maior sucesso, tendo também como característica o facto de ter dado oportunidade a muitos realizadores, na altura inexperientes (logo com ordenados mais baixos), como Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Joe Dante, Jonathan Demme, John Sayles, entre muitos outros.

Muito embora o seu reduzido orçamento, os filmes da NWP têm um visual muito próprio, que advém, não só do estilo dos realizadores (Corman deixava os seus realizadores fazerem o seu trabalho, sugerindo apenas que o filme tivesse “movimento”), mas também de locais exóticos, como as Filipinas. Roger Corman encontrou neste país, não só locais visualmente apelativos para rodar os seus filmes, como era mais barato ai filmar: The Big Doll House (1971) foi a primeira produção da NWP a ser rodada nas Filipinas, tendo custado apenas $125 mil dólares e arrecadado cerca de $3 milhões, sendo uma das produções mais rentáveis da empresa.

Em 1983, Roger Corman vende a empresa que, sob nova administração, praticamente abandona a produção cinematográfica e se concentra, já sob o nome de New World Communications, no negócio televisivo. Muito embora a empresa tenha continuado a existir até 1997, a NWP é recordada pelo período de Roger Corman, sendo o reflexo do seu criador.

Caminho para Dois

Two for the Road
Stanley Donen Films, 20th Century-Fox
Grã-Bretanha, 1967, 111m, drama
Realizador: Stanley Donen
Argumento: Frederic Raphael
Actores: Audrey Hepburn, Albert Finney, Eleanor Bron, William Daniels, Gabrielle Middleton, Claude Dauphin, Jacqueline Bisset

Relato de 12 anos de casamento de um casal, visto através das suas diversas viagens pela Europa.

Caminho para Dois é um olhar critico à instituição do casamento, assente em duas grandes interpretações de Audrey Hepburn e Albert Finney e realizado com grande estilo e irreverência por Stanley Donen (Serenata à Chuva).

O filme marca a terceira e última colaboração entre Donen e Hepburn, após Cinderela em Paris e Charada, numa altura em que a carreira da actriz estava no auge. Donen, que é o produtor do filme, queria Hepburn no papel de Joanna e insistiu com a actriz até ela aceitar interpretar a personagem. Hepburn teve conhecimento do filme através de um resumo enviado pelo realizador e recusou-o porque não pretendia participar em mais um filme vanguardista e repetir uma má experiência anterior. Donen insistiu e enviou-lhe o argumento completo, que a actriz adorou aceitando, então, participar em Caminho para Dois. Para o papel de Mark, o jovem arquitecto casado com Joanna, Donen preferia Paul Newman ou Michael Caine, mas após a recusa destes a escolha acabou por recair em Albert Finney, um excelente actor britânico e com uma longa carreira no teatro e cinema.

Para além das excelentes interpretações dos protagonistas, o que mais sobressai de Caminho para Dois, e o mantém interessante e vivo, é a forma não linear como a história é contada, justapondo-se as diferentes linhas do tempo (por vezes com situações bem divertidas). A personagem interpretada por Hepburn é o pivot dessas justaposições já que é essencialmente através das suas roupas e penteados que se faz a cronologia dos acontecimentos.

Filmado integralmente em França e cujos cenários naturais dão um ambiente único ao filme, Caminho para Dois conta com a extraordinária música de Henry Mancini, que “acompanha” e transmite de uma forma intensa os altos e baixos da relação do casal. Embora não seja uma das mais conhecidas do compositor, a música foi nomeada para um Globo de Ouro. Ainda a nível de prémios, Caminho para Dois foi nomeado para o Óscar de melhor argumento, mas Frederic Raphael não repetiu a vitória de 1966, quando foi galardoado por Darling. Muito embora a sua excelente interpretação, Audrey Hepburn não foi nomeada para os Óscares, já que a Academia optou por nomea-la por Wait Until Dark, estreado no mesmo ano.

A Atalante

L’ Atalante
Gaumont-Franco Film-Aubert
França, 1934, 89m, drama
Realizador: Jean Vigo
Argumento: Jean Guinée, Albert Riéra e Jean Vigo
Actores: Dita Parlo, Jean Dasté, Michel Simon, Gilles Margaritis, Louis Lefebvre, Maurice Gilles, Raphaël Diligent

Após o casamento, Juliette e Jean vão viver para o barco deste, mas a vida abordo não satisfaz Juliette, que sonha em visitar Paris. Quando surge a oportunidade, ela foge para visitar a cidade, provocando uma ruptura no casamento.

A filmografia de Jean Vigo “resume-se” apenas a 4 filmes, uma vez que o realizador faleceu aos 29 anos de idade, vítima de tuberculose. No entanto, A Atalante, a sua única longa-metragem, é um dos mais extraordinários filmes da sétima arte, estabelecendo Vigo como um dos pioneiros do realismo poético na década de 30 e cuja influência na nouvelle vague foi fundamental. Aliás, um dos um dos seus maiores fãs foi o realizador francês François Truffaut, que viu A Atalante pela primeira vez aos 14 anos e ficou extasiado pela obra.

Nascido em 1905, de pais anarquistas, Jean Vigo cedo se apaixonou pela imagem e pelo cinema, em particular a sua história, e com o dinheiro do sogro iniciou a sua curta carreira com o documentário À Propos de Nice (1930), dedicado à cidade francesa. Nos dois anos seguintes realiza outras duas curtas-metragens Taris, Roi de l’Eau (1931) e Zero de Conduit (1932), uma visão negra sobre os colégios para rapazes, onde o realizador projecta a sua própria adolescência.

Foi a fama de Zero de Conduit que permitiu a Vigo realizar A Atalante, no rigoroso inverno de 1933/34. As 11 semanas de rodagem decorreram em condições difíceis, quer de tempo, quer a nível de segurança, já que as filmagens decorreram em canais e pontes congeladas e contribuíram para a doença que levou à morte o realizador. Muito embora as difíceis condições, o entusiasmo e tenacidade de Vigo, muito admirados pela equipa técnica, nunca esmoreceram, o que torna o filme e o talento do realizador ainda mais admiráveis.

Para os principais papeis de A Atalante, Vigo recrutou Jean Dasté, com quem tinha trabalhado em Zero de Conduit, Dita Parlo, conhecida actriz alemã e que participou em A Regra do Jogo, e o conhecido actor teatral Michael Simon. Para a música, Vigo convidou o seu amigo Maurice Jaubert, autor da música de Zero de Conduit e que tinha conhecido numa apresentação sobre filmes mudos. O músico viria a tornar-se num dos mais importantes compositores franceses de bandas sonoras, em particular na era do mudo e no inicio dos filmes sonoros.

Após as filmagens, Vigo estava demasiado doente para participar plenamente na montagem do filme e as primeiras versões foram consideradas impróprias para exibição, tendo o estúdio exigido cortes de forma a tornar o filme mais comercial. Perante a pressão, Vigo respondeu “Je me suis tué avec L’Atalante” (A Atalante matou-me). Três semanas após a estreia falhada do filme, o realizador morreu, seguido da sua jovem mulher. Muito embora criticas favoráveis, o filme rapidamente foi esquecido até porque a morte do realizador fez cancelar muitas das exibições do filme. Tempos mais tarde, o estúdio remontou o filme e substituiu a música de Jaubert por uma canção popular na época.

Carregado de alguma sexualidade, A Atalante, tal como os restantes filmes do realizador, foram banidos em França até 1945 e muito embora diversas tentativas para restaurar o filme, este apenas foi redescoberto nos anos 90. A nova vida de A Atalante deveu-se à descoberta de uma cópia da versão original do realizador nos arquivos do British Film Institute, que a deverá ter recebido por engano em 1934. Esta versão foi, então, restaurada e dada uma ampla exibição, o que possibilitou a redescoberta do filme.

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