A história da 20th Century Fox, no seu 75º aniversário

Eu Confesso

I Confess
Warner Bros.
EUA, 1953, 95m, thriller
Realizador: Alfred Hitchcock
Argumento: George Tabori e William Archibald, baseado na peça Nos Deux Consciences, de Paul Anthelme
Actores: Montgomery Clift, Anne Baxter, Karl Malden, Brian Aherne, Dolly Haas, Ovila Légaré, O.E. Hasse

Durante um roubo, um assaltante mata um homem e confessa o seu crime a um padre. Este torna-se um dos suspeitos da subsequente investigação, mas o poder da confissão impede-o de revelar o verdadeiro assassino.

Eu Confesso basea-se na peça de 1902 Nos Deux Consciences (As nossas duas consciências), cuja representação, Hitchcock viu em Londres na década de 30. O realizador interessou-se imediatamente em adaptar a peça ao grande ecrã, mas apenas adquiriu os seus direitos em 1947, através da sua produtora Transatlantic Pictures. O argumento teve diversas versões e autores, entre eles o próprio Hitchcock e a sua mulher, Alma, e nem a falência da Transatlantic fez o realizador perder o interesse pela adaptação. Na versão do argumento registada em 1952, a última antes do início da rodagem, o protagonista (Padre Logan) é enforcado e só posteriormente é revelada a sua inocência. No entanto, a pressão da Igreja Católica obrigou Hitchcock, católico, a alterar o final já a meio da rodagem do filme.

Eu Confesso tem como cenário a cidade canadiana de Quebec, cuja escolha se deveu ao facto de ser a que mais se assemelhava à cidade da peça original e porque, na opinião de Hitchcock, em mais nenhuma cidade da América do Norte se via padres anglicanos a andar na rua de hábito. A forma como Hitchcock filme a cidade (destacando-se as cenas iniciais em que a câmara “percorre” as ruas da cidade, definindo o ambiente do filme) faz dela um importante “personagem”. Ao longo do filme é possível identificar, entre outros, alguns edifícios emblemáticos de Quebec como o Parlamento, a igreja Saint Zéphirin-de-Stadacona e Chateau Frontenac.

A escolha de Montgomery Clift para interpretar a personagem de Padre Logan foi pacífica e revela-se acertada, já que o actor, um dos melhores representantes do “método”, consegue exprimir toda a angústia e sofrimento do Padre Logan, nomeadamente através de uma interpretação “minimalista”, mas extremamente eficaz. Quanto à personagem de Ruth, a primeira opção recaiu em Anita Bjork, mas quando a actriz chegou a Quebec, grávida e solteira, a Warner Bros. rescindiu-lhe o contracto com receio da reacção do público, que tinha reagido mal ao romance extra-matrimonial da actriz Ingrid Bergman com o realizador Roberto Rossellini. O papel acabaria por ser interpretado por Anne Baxter, mais conhecida pela sua interpretação em Eva, ao lado de Bette Davis, e que lhe valeu uma nomeação aos Óscares.

Nos papéis secundários, Eu Confesso conta com a participação de Karl Malden, que imprime uma vitalidade única ao Inspector Larrue, e da actriz alemã Dolly Haas. Famosa no seu país natal, Haas abandonou a carreira de actriz para se dedicar ao seu casamento com o cartoonista Al Hirschfeld e Eu Confesso marcou o seu regresso à interpretação, sendo o único filme americano da actriz.

De acordo com algumas fontes, Hitchcock terá ficado desiludido com a fraca recepção do público a Eu Confesso e ao contrário de algumas declarações do realizador, o filme rendeu algum dinheiro à Warner Bros. A reacção azeda de Hitchcock deveu-se ao facto de ter gasto algum do seu próprio dinheiro na produção do filme e posteriormente ter sido “obrigado” a assinar um contracto com o estúdio, quando o financiamento independente não se concretizou. O contrato previa uma percentagem das receitas do filme para o realizador apenas quando este recuperasse 4 vezes o seu orçamento, o que inviabilizou que Hitchcock recupera-se o dinheiro que tinha investido no filme.

Eu Confesso é um dos filmes mais pessoais de Alfred Hitchcock e um dos melhores exemplos do tema “transferência de culpa”, que o Cahiers du Cinema identifica na obra do realizador. Assassínio, chantagem e sofrimento humano percorrem a obra do realizador e constituem a essência de Eu Confesso, mas a falta de humor e o facto de ser mais “real” do que outros filmes do realizador, fazem com que não seja considerado como uma das suas obras-primas. No entanto, também por isso, vale a pena olhar para este clássico, que não deixa de ser um excelente trabalho do mestre Hitchcock.