A história da 20th Century Fox, no seu 75º aniversário

O Crepúsculo dos Deuses

Sunset Blvd.
Paramount Pictures
EUA, 1950, 110m, film-noir
Realizador: Billy Wilder
Argumento: Charles Brackett, Billy Wilder e D.M. Marshman Jr.
Actores: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb, Franklyn Farnum, Buster Keaton

Joe Gillis, um argumentista sem sucesso, é contratado por Norma Desmond, uma antiga estrela de Hollywood, para escrever o filme que a levará de regresso ao estrelato. Norma apaixona-se por Joe e a relação de ambos torna-se bastante atribulada.

A extensa carreira do realizador Billy Wilder está recheada de obras-primas e momentos únicos da história do cinema, mas O Crepúsculo dos Deuses mantém um estatuto próprio, graças ao seu olhar crítico e sarcástico a Hollywood e ao star system em particular.

Um dos mais negros dos film-noir, O Crepúsculo dos Deuses junta factos e ficção num argumento que marca o último trabalho entre Wilder e o seu colaborador de longa data Charles Brackett e que se baseia na história que ambos escreveram, A Can of Beans (nome de código do filme durante a produção devido ao receio que os produtores tinham da reacção da comunidade de Hollywood a um filme que os criticava).

Para além do excelente argumento, O Crepúsculo dos Deuses tem em Gloria Swanson outro dos seus pilares, já que a actriz consegue uma interpretação memorável e sem a qual é impensável imaginar o filme. No entanto, Swanson não foi a primeira escolha para o papel e só as recusas de Mae West e Pola Negri, e o facto de o estúdio ter recusado Mary Pickford porque esta queria demasiado controlo criativo do filme, é que permitiram que Swanson fosse contratada. Todas as actrizes consideradas para o filme conheceram a fama na era do mudo, mas é a forma autobiográfica como Swanson interpreta Norma Desmond que faz desta uma personagem memorável e um verdadeiro ícone da história do cinema. Como curiosidade refira-se que o nome Norma Desmond é uma combinação de duas importantes figuras de Hollywood de outrora: a actriz Mabel Normand e o realizador William Desmond Taylor, amante de Mabel.

Para desempenhar o papel do argumentista caído em desgraça, a escolha recaiu em William Holden, embora o actor tenha sido apenas a 5ª opção: Montgomery Clift chegou a assinar contracto, mas rasgou-o duas semanas antes do início das filmagens, Fred Macmuray recusou o papel porque não quis interpretar um gigolô, Marlon Brando foi descartado por ser um desconhecido na altura e Gene Kelly não foi emprestado pela Metro-Goldwyn-Mayer. Só depois destas recusas é que Billy Wilder considerou Holden como opção, embora o realizador não tivesse o actor em muita consideração. No entanto, após O Crepúsculo dos Deuses, os dois tornaram-se grandes amigos e voltaram a trabalhar diversas vezes em conjunto.

Com presença discreta, mas extremamente eficaz e importante, Erich von Stroheim interpreta o papel de mordomo/motorista de Norma Desmond. O que torna ainda mais especial a sua participação é o facto de Stroheim ter sido um dos mais talentosos profissionais de Hollywood na época do mudo, tendo desempenhado diferentes profissões e realizado o extraordinário Aves de Rapina. A personagem que desempenha é, tal como na sua vida real, um realizador caído em desgraça e é este facto, aliado à sua extraordinária interpretação, que dá uma dimensão única a O Crepúsculo dos Deuses. O melhor reflexo disso mesmo é a cena em que Norma e Joe assistem a um dos antigos filmes da actriz, que é, na realidade, Queen Kelly, que Stroheim realizou em 1929 e interpretado por Swanson.

Mas a semelhança com a vida real não se fica por aqui, já que o filme está “povoado” por figuras de Hollywood, muitas delas verdadeiras lendas. Assim, ao longo do filme podemos encontrar o realizador Cecil B. DeMille, a colunista Hedda Hopper e estrelas do cinema mudo como Buster Keaton, Anna Q. Wilsono e H.B.Warner, para além dos próprios estúdios da Paramount Pictures.

Com um orçamento estimado em $1.7 milhões de dólares, O Crepúsculo dos Deuses estreou a 4 de Agosto de 1950 (o filme estreou em Portugal em Maio de 1951), tendo arrecadado cerca de $5 milhões de dólares em todo o mundo. Embora tenha recebido 11 nomeações aos Óscares, o filme apenas ganhou três estatuetas douradas, nomeadamente: para melhor história e argumento, melhor direcção de arte a preto e branco e melhor banda sonora na categoria de filme dramático ou comedia. Nitidamente uma injustiça.

O retracto cru do star system que é O Crepúsculo dos Deuses tem perdurado ao longo da história do cinema e chega aos nossos dias como um dos mais emblemáticos dramas de Hollywood. Para além deste olhar sobre a indústria do cinema, o filme é também exemplar da mestria de Billy Wilder, que consegue, mais uma vez, “misturar” diversos ingredientes e construir um filme genial que é um dos melhores testemunhos de Hollywood.

Em 1993, a história de “O Crepúsculo dos Deuses” foi adaptada ao teatro, tendo estreado primeiro em Londres e posteriormente em Los Angeles e na Broadway, com Glenn Close no papel de Norma Desmond, tendo arrecadado 7 Tonys (o prémio teatral equivalente aos Óscares).

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