A história da 20th Century Fox, no seu 75º aniversário

A Noiva de Frankenstein

The Bride of Frankenstein
Universal Pictures
Estados Unidos, 1935, 75m, terror
Realizador: James Whale
Argumento: William Hurlbut e John Balderston, baseado no livro de Mary Shelley
Actores: Boris Karloff, Colin Clive, Elsa Wollstonecraft, Valerie Hobson, Ernest Thesiger, Gavin Gordon

O Dr. Frankenstein e a criatura que criou estão vivos e o cientista pretende abandonar a ciência para viver uma pacata vida familiar com a sua noiva, mas um colega seu obriga-o a criar uma nova criatura.

Após o sucesso de Frankenstein, em 1931, tornou-se inevitável uma sequela e a Universal anunciou “The Return of Frankenstein” em 1933, com Boris Karloff a vestir novamente a pele do monstro e Bela Lugosi no papel de Dr. Pretorius. No entanto, a recusa de James Whale em realizar a sequela, assim como a desistência de Lugosi em participar no filme, fez com que este fosse sendo adiado e a produção só avançou quando Whale finalmente consentiu em realizar o filme, em 1935.

Optando por ser mais fiel à história de Mary Shelley, a Universal deu a Tom Reed a tarefa de escrever o argumento, mas este foi posteriormente substituído por William Hurlbut e John Balderston, que imprimiram mais humor à história a pedido do realizador. Com o argumento a ser escrito, Whale começou então a escolher os actores: Boris Karloff volta a interpretar o monstro, assim como Colin Clive volta a dar corpo ao Dr. Frankenstein. No entanto, a personagem de Elizabeth, ao contrário do primeiro filme e como pretendia o estúdio, não foi interpretada por Mae Clarke, que se encontrava doente, mas por Valerie Hobson, menor de idade na altura e por cujo papel apenas recebeu $800 dólares. Com a desistência de Bela Lugosi, a Universal escalou Claude Rains (Casablanca) para o personagem de Dr. Pretorius, mas a recusa de Whale em trabalhar com Rains fez com que o estúdio opta-se por o “colocar” no filme Mystery of Edwin Drood e aceitar a escolha do realizador por Ernest Thesiger. Para a personagem de “namorada do monstro”, que é identificada na ficha técnica do filme apenas como “?” e após considerar seriamente Brigitte Helm, a protagonista de Metropolis, e a modelo Phyllis Brooks, a Universal acabou por optar por Elsa Wollstonecraft, que tem uma interpretação memorável.

A Noiva de Frankenstein começa no ponto onde Frankenstein termina, mas as diferenças entre o original e a sequela são bastantes acentuadas. Enquanto o primeiro é um simples filme de terror, a sequela é uma história bastante mais complexa, que utiliza o humor para construir o seu ambiente e, ao mesmo tempo, acentuar o terror. Outra grande diferença reside na concepção do monstro: em A Noiva de Frankenstein, aquele surge mais humano e muitas vezes como vitima, aproximando-se do monstro original de Mary Shelley. Para além disso, o facto de ganhar voz torna-o mais simpático e, logo, mais próximo do público.

Uma boa parte da qualidade de A Noiva de Frankenstein assenta no trabalho de James Whale, que, aqui, teve rédea livre para realizar o filme: para além de ser um dos mais bem sucedidos realizadores da Universal, Carl Laemmle Jr., o responsável do estúdio, estava de férias na Europa aquando da rodagem do filme e, assim, não “perturbou” o realizador). O filme denota um realizador mais seguro e confiante e é da sua inteira responsabilidade o facto de o filme ter a quantidade certa de humor. Ao longo do filme é  também possível identificar a influência do expressionismo alemão no trabalho de Whale, que é acentuado pelo extraordinário trabalho de fotografia de John J. Mescall.

Outro aspecto que acentua a diferença entre os dois filmes é a natureza e qualidade da música de A Noiva de Frankenstein. Se até aqui, a música em filmes resumia-se ao genérico e à ficha técnica final (na altura o som sincronizado era ainda uma novidade e os estúdios não sabiam bem como utilizar este elemento nos filmes), Franz Waxman, um estudante polaco que fugiu da ameaça nazi, construiu uma peça musical que envolve todo o filme e se torna, ela própria, numa personagem. Utilizando a mesma técnica musical das óperas, Waxman criou uma peça constituída por frases musicais especificas que identificam os diferentes personagens e que, no seu conjunto, ajudam a história a desenvolver-se. O seu trabalho foi de tal forma bem sucedido, que lhe valeu um contracto com a Universal e esta utilizou a sua obra em diversos outros filmes, nomeadamente nos serials de Buck Rogers (1939).

Tal como o primeiro, também A Noiva de Frankenstein teve problemas com a censura, que começaram logo na escrita do argumento. Nos 4 anos que decorreram entre o original e a sequela, o panorama de Hollywood sofreu alterações, muito por causa da instituição do Código de Produção, que impôs regras estritas aos estúdios. A Universal teve, então, de submeter o argumento para aprovação e logo ai a censura levantou questões, nomeadamente a presunção do Dr.  Frankenstein em se comparar com Deus, cena que teve de ser cortada. Outras questões  e que originaram mais cortes, quer no argumento, quer posteriormente de cenas, foram as referências de imoralidade e adultério e que implicou a inclusão de uma explicação de que o filme é uma obra de ficção contada pelas palavras de Mary Shelley.

Os problemas de censura não se restringiram aos Estados Unidos e o filme foi severamente amputado em países como a China, Singapura e Japão e na Suécia os cortes foram tantos que o filme foi estreado como curta-metragem. Em Trinidade, Hungria e na Palestina A Noiva de Frankenstein foi banido por completo, pelo simples facto de ser um filme de terror.

Com um orçamento de $400 mil dólares (o dobro de Frankenstein), A Noiva de Frankenstein foi rodado em 46 dias nos estúdios da Universal Pictures na Califórnia, tendo estreado a 22 de Abril de 1933 (em Portugal estreou a 4 de Novembro de 1935).  Muito poucas sequelas se podem gabar de serem melhores que o filme original e A Noiva de Frankenstein consegue essa proeza, mantendo e entendendo o conceito original com elementos únicos (a imagem da “noiva” é o melhor exemplo disso mesmo) e na proporção certa (veja-se os elementos humorísticos).

Este texto faz parte da série dedicada aos filmes produzidos pela Universal Pictures durante a década de 30 e 40, que têm o monstro criado pela escritora Mary Shelley como protagonista. Os restantes filmes são Frankenstein (1931)O Filho de Frankenstein (1939), O Fantasma de Frankenstein (1942), Frankenstein Meets the Wolf Man (1943).