À Beira do Abismo (1946)

Após o sucesso surpresa de Ter ou Não Ter, a Warner Bros. pediu ao produtor e realizador Howard Hawks para repetir a fórmula e juntar de novo o par Bogard e Bacall. Hawks aceitou o desafio e viu no livro de Raymond Chandler The Big Sleep, a história ideal para o par romântico. Hawks pediu à Warner 50 mil dólares para adquirir os direitos cinematográficos do livro, tendo pago apenas 5 mil a Chandler. O restante dinheiro ficou no bolso do realizador e, de acordo com Chandler, Hawks mereceu todo o dinheiro já que transformou a história de um detective privado, numa engraçada, sensual e emocionante viagem pela Los Angeles dos anos 40.

A história original escrita por Chandler é cheia de referências a temas polémicos (estávamos em plena década de 40) como drogas, pornografia e homossexualidade. Com o Código de Produção em pleno vigor, não era possível ao argumentista William Faulkner (Nobel da Literatura) ser fiel à obra de Chandler e o argumento sofreu muitas alterações (para as quais também contribuíram Leigh Brackett e Jules Furthman). Embora a história seja confusa (nem o próprio Chandler sabia quem tinha assassinado quem), o filme está longe de ser frustrante e essa confusão faz parte do seu charme.

Hawks tinha razão e À Beira do Abismo revelou-se perfeito para Bogard e Bacall colocarem no ecrã a química (e o romance) que existia entre eles. Se Bogard era já uma estrela de Hollywood, Bacall era uma jovem que dava os primeiros passos na sétima arte. O seu primeiro filme (Ter ou Não Ter) foi um sucesso, fazendo do casal um dos pares românticos de maior sucesso da América. No entanto, o seu segundo filme (Confident Agent, onde contracena ao lado de Charles Boyer) teve uma recepção muito fraca, o que deu mais força a um novo filme entre Bogard e Bacall.

O filme foi rodado durante o Outono de 1944, em plena II Guerra Mundial, e a primeira versão não agradou ao agente de Bacall que exigiu novas cenas (a enfatizar a excelente relação com Bogard) e uma nova montagem. A Warner acedeu e Hawks realizou novas cenas, com especial destaque para a cena dos “cavalos de corrida”: um dos mais tensos e espectaculares diálogos da sétima arte.

A primeira versão (apenas exibida às tropas americanas que combatiam na II Guerra Mundial) foi arquivada pela Warner, que estreou a 2ª versão do filme em Agosto de 1946 com grande sucesso (apenas chegou a Portugal em Janeiro de 1948). Em 1997, foi descoberta a versão de 1945, que a Universidade da Califórnia restaurou e tornou possível a comparação entre as duas versões: se na primeira a história é menos confusa e inclui uma cena em que o chefe da polícia explica os acontecimentos, apenas na versão de 1946 é possível ver as melhores cenas da explosiva relação entre Bacall e Bogard.

Para Howard Hawks, um dos grandes realizadores americanos, um bom filme é um que contém 3 boas cenas e nenhuma má. A comparação entre as duas versões permite constatar que à segunda versão foi adicionada uma das boas cenas do filme e eliminadas algumas das más, provando que o realizador tinha razão.

Resultado do trabalho de grandes profissionais, À Beira do Abismo é um excelente film noir (mesmo faltando algumas das características que definem o género) com um ritmo alucinante e um argumento com diálogos inteligentes que permite aos personagens deambular por uma atmosfera negra e diabólica.

Em 1978, Robert Mitchum interpretou o papel do detective Philip Marlow, num remake britânico de À Beira do Abismo, mas o filme, passado em Londres nos anos 70, está longe da frescura e atmosfera do original.

The Big Sleep
Warner Bros. / First National Pictures. EUA, 1946, 114m, thriller
Realizador: Howard Hanks. Argumento: William Faulkner, Leigh Brackett e Jules Furthman, baseado na obra de Raymond Chandler. Actores: Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Ridgely, Martha Vickers, Dorothy Malone, Peggy Knudsen, Regis Toomey

Um detective privado investiga um caso de chantagem e envolve-se com as filhas do homem que o contratou.