A Dama do Lago (1947)

A Dama do Lago poderia ser mais um entre os muitos exemplos de film-noir existentes, mas as suas circunstâncias de produção fazem dele um filme único na história do cinema. Antes de mais, revela-nos um Philip Marlowe muito diferente do que estamos habituados, nomeadamente de À Beira do Abismo, um dos grandes film-noir da história do cinema. Em segundo lugar, pelo facto de ser filmado, na sua maioria, em câmara subjectiva, praticamente uma estreia em filmes de uma major.

O argumento de A Dama do Lago foi escrito pelo próprio Raymond Chandler, sendo a única vez que o escritor escreveu um argumento cinematográfico. No entanto, a versão que Chandler apresentou, com cerca de 175 páginas, revelou-se impossível de filmar e a MGM teve de contratar Steve Fisher para reescrever o argumento. Chandler insistiu que o seu nome fosse creditado como argumentista, mas após ler a versão de Fisher, recusou ver o seu nome associado ao argumento. A principal causa desta atitude foi a exclusão de uma cena crucial do romance original e a opção de Fisher de apresentar o filme em câmara subjectiva.

É precisamente a câmara subjectiva que torna A Dama do Lago um filme único. Tanto para mais que marca a estreia de Robert Montgomery como realizador (à excepção da experiência não creditada no filme Homens para Queimar, em que substituiu o realizador John Ford, que partiu uma perna nas rodagens). Montegomery, que aqui tem seu último filme para a MGM, com quem tinha contracto desde 1929, confessou as dificuldades que sentiu na realização numa entrevista na época, revelando que o filme implicou muitos ensaios, treino e cenários especiais, que consumiram grande parte do orçamento.

De tal forma a câmara subjectiva marca o filme, que o departamento de publicidade da MGM utilizou-o para publicitar o filme, anunciando que era o espectador, em conjunto com Montegomery, que resolvia o crime da história. No entanto, A Dama do Lago é muito mais que a câmara subjectiva e revela-se um interessante film-noir, com excelentes interpretações, nomeadamente as de Jayne Meadows, que interpreta três personagens diferentes, e Audrey Totter, que aqui tem o seu primeiro papel importante.

Como curiosidade, refira-se que a ficha técnica inclui a actriz Ellay Mort, a interpretar a personagem Chrystal Kingsby, que não surge no filme. A referência é uma brincadeira, já que a fonética do nome é semelhante à frase francesa “elle est mort” (ela está morta).

Lady in the Lake
Metro-Goldwyn-Mayer. Estados Unidos, 1947, 103 min., film-noir
Realizador: Robert Montgomery. Argumento: Steve Fisher, baseado no romance de Raymond Chandler. Actores: Robert Montgomery, Audrey Totter, Lloyd Nolan, Tom Tully, Leon Ames

O detective privado Philip Marlowe investiga o desaparecimento de uma mulher.

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