A Infame Mentira (1961)

À entrada da década de 60, o Código de Produção, que tinha dominado e condicionado a produção cinematográfica norte-americana nas décadas anteriores, começava a mostrar sinais de fraqueza e a produção de A Infame Mentira é reflexo disso mesmo.

Baseado na peça com o mesmo nome (The Childrens Hour), A Infame Mentira marca o regresso de William Wyler à obra de Lillian Hellman, que o realizador já tinha adaptado em 1936, sob o título Três Corações Iguais. Ao contrário da primeira versão, cuja história foi alterada de forma a fugir ao tema da homossexualidade, esta versão de 1961 mantêm uma possível relação entre as duas mulheres como ponto central da história e embora o filme seja considerado um remake, Wyler nunca o considerou como tal. Isto porque os dois filmes são totalmente diferentes e só a liberalização da sociedade Americana e do próprio Código de Produção, permitiu a Wyler adaptar verdadeiramente a história original de Lillian Hellman. No entanto, Wyler não foi tão longe quanto poderia ter ido com a história e, segundo a actriz Shirley MacLaine, o realizador deixou de fora algumas cenas por receio da reacção do público. Embora A Infame Mentira seja abertamente um retrato sobre a homossexualidade, a verdade é que o assunto não é tratado de forma explicita e, como prova disso mesmo, o facto de, no filme, nunca ser dita a palavra “lésbica”.

A Infame Mentira foi bem recebido por críticos e pelo público e as interpretações de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine, que se complementam na perfeição, dão um equilíbrio ao filme e mantêm-no “vivo”. Por sua vez, James Garner, que completa o trio “amoroso” e, aqui, regressa ao grande ecrã depois de ter processado a Warner Bros. para ser dispensado da série televisiva “Maverick”, tem a interpretação mais fraca dos três, mas sem por em causa a qualidade do filme.

Se a abertura que já se sentia, à entrada da década de 60, na sociedade norte-americana permitiu que A Infame Mentira fosse produzido, a verdade é que o filme, com um retrato negro sobre a homossexualidade, veio afirmar a decadência do Código de Produção e a necessidade da indústria cinematográfica norte-americana em se adaptar aos novos tempos e aos gostos de um público cansado do moralismo corporativo.

The Children’s Hour
United Artists, Estados Unidos, 1961, 107 min., drama
Realizador: William Wyler. Argumento: John Michael Hayes, baseado na peça The Children’s Hour de Lillian Hellman. Actores: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner, Miriam Hopkins, Fay Bainter.

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