A Ponte do Rio Kwai (1957)

Considerado um dos grandes épicos da história da sétima arte, A Ponte do Rio Kwai é uma batalha psicológica de vontades e, tal como os acontecimentos que a história descreve, também a sua produção se revelou uma verdadeira aventura e o resultado da vontade de um homem: o produtor Sam Spiegel.

Em 1954, Spiegel encontrava-se na Europa para a estreia de Há Lodo no Cais, quando, em Paris, tomou conhecimento do livro A Ponte do Rio Kwai, do escritor francês Pierre Boule e resolveu comprar um exemplar para ler na sua viagem para Londres. Spiegel ficou tão impressionado com a história, que adquiriu os seus direitos assim que lhe foi possível, contratando de seguida os argumentistas Michael Wilson e Carl Foreman para escrever o argumento (Wilson e Foreman pertenciam à lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e é Boule, que não sabia uma única palavra de inglês, que surge na ficha técnica do filme como o autor do argumento).

A múltipla nacionalidade dos diversos personagens levou Spiegel a viajar um pouco por todo o mundo para encontrar os vários actores e só no final de 1956 é que conseguiu contratar as duas estrelas do filme: William Holden e Alec Guiness. Se Holden, na altura o actor mais popular de Hollywood, facilmente aceitou participar no filme, já Guiness deu mais trabalho para contratar: o actor inglês era mais conhecido pelos seus papéis cómicos e não se via no papel do austero Coronel Nicholson, mas Spiegel sabia o que queria e, após um jantar entre os dois, Guinesess acedeu a participar no filme. Os restantes actores foram relativamente fáceis de contratar e Spiegel, de forma a conferir autenticidade aos personagens, contratou actores tailandeses, japoneses e, para chefe da aldeia, um herói da resistência, que durante a guerra ajudou a salvar vários militares dos japoneses.

Com a escolha de actores definida, Spiegel, que entretanto escolhera David Lean para realizador, parte para a Ásia para, em conjunto com o realizador e com o director de fotografia Jack Hildyand, resolverem outro problema: o local das filmagens. A história do filme tem por base o “Caminho-de-ferro da Morte”, uma linha que atravessava a Birmânia, Malásia e Sião, mas todos estes países levantavam problemas para a grande produção e tornava-se difícil o transporte de pessoas e equipamento. Após muitos quilómetros percorridos, Spiegel e Lean encontraram o local perfeito: Ceilão (actual Sri Lanka), uma ilha com 8 milhões de habitantes e com as condições perfeitas. Os habitantes da ilha revelaram-se excelentes colaboradores e alguns serviram de figurantes, contribuindo para as 37 nacionalidades representadas no elenco.

A equipa de produção passou perto de um ano no Ceilão, tendo iniciado a construção da ponte, na altura um dos maiores cenários alguma vez construídos para um filme, na Primavera de 1956. Durante os 8 meses da sua construção foram gastas 1.500 árvores gigantes e necessários 48 elefantes para transportar a madeira. A ponte, construída a partir de um esboço de guerra, tinha 130 metros de comprimento e 90 de altura, tendo custado cerca de 250 mil dólares.

As filmagens tiveram início a 1 de Outubro de 1956 e durante os 8 meses que duraram, a produção foi assolada por um conjunto de acidentes, entre eles um desastre de automóvel, que provocou um ferido e a morte de um assistente de realização, e um outro, que quase ia destruindo a ponte. Para além destes acidentes, os figurantes, muito embora as boas condições existentes, foram vítimas do calor e alguns deles sofreram insolações. Mas dos muitos problemas que a produção teve de enfrentar o mais curioso foi o da água do rio, que num dia estava verde e no dia seguinte, devido a uma tempestade nocturna, ficou amarela do lodo. A produção resolveu o problema deitando tinta verde para a água.

Os problemas não se ficaram por aqui e até a necessidade de ver as cenas filmadas constituiu uma dor de cabeça: como não era possível revelar película no Ceilão, o material filmado era enviado para Londres por avião e depois devolvido para que Spiegel e Lean pudessem decidir se era necessário filmar novamente alguma cena.

O momento mais intenso da produção foi o da filmagem da destruição da ponte: o trabalho de 8 meses acabaria por ser destruído em poucos segundos. Inicialmente prevista para 1 de Março de 1957, a cena, filmada por 6 câmaras, foi adiada para o dia seguinte devido a um erro de um dos operadores de câmara. No dia seguinte, a cena foi filmada sem nenhum percalço e as bobines de filme foram enviadas para Londres em três aviões diferentes, para que pelo menos uma chegasse em boas condições.

Com um custo total de 3 milhões de dólares, A Ponte do Rio Kwai estreou a 18 de Dezembro de 1957, tendo sido o campeão de bilheteira desse ano com um total de 27 milhões de dólares de receita. Para além do sucesso comercial, o filme foi também um sucesso de critica e arrecadou sete óscares, entre eles o de melhor filme, melhor realizador, melhor actor (Guiness) e melhor argumento.

A Ponte do Rio Kwai é um soberbo exemplo da qualidade do trabalho de Sam Spiegel, que conseguiu reunir esforços e talentos para construir um confronto psicológico entre dois símbolos de culturas diferentes, mas que partilham a mesma maneira de ser. Quer pelas suas qualidades artísticas, quer pela envolvência da sua produção, A Ponte do Rio Kwai tem um lugar especial na história da sétima arte.

The Bridge on River Kwai
Columbia Pictures. GB / EUA, 1957, 161m, guerra
Realizador: David Lean. Argumento: Michael Wilson e Carl Foreman, baseado no romance de Pierre Boule. Actores: William Holden, Alec Guinness, Sessue Hayakawa, Geoffrey Horne, James Donald, Percy Herbert, Ann Sears

Soldados britânicos presos num campo de concentração japonês são obrigados a construir uma ponte sem saber da existência de uma missão dos aliados para destruírem essa mesma ponte.

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