Chantagem (1929)

importância de Chantagem na história do cinema não se resume ao facto de ser um interessante thriller do mestre Alfred Hitchcock (na altura com 30 anos), mas principalmente pelo facto de ter sido a primeira produção sonora da Grã-Bretanha.

Hitchcock estava na fase de pós-produção do filme quando os responsáveis da British Internacional Pictures o informaram que o estúdio já disponha de equipamento de som e lhe perguntaram se estaria interessado em estrear o equipamento. O realizador disse que sim e com os mesmos actores da versão muda, voltou a filmar determinadas cenas de Chantagem, acrescentando diálogos e efeito sonoros. No entanto, havia um problema: a actriz principal (Anny Ondra) tinha uma voz demasiado fina, assentuada pelo sotaque polaco. Em vez de substituir a actriz, Hitchcock decidiu que ela apenas iria imitar as falas, enquanto a actriz Joan Barry ia lendo os diálogos em voz alta atrás da câmara. O truque, longe de ser perfeito, resultou e Chantagem tornou-se no primeiro filme sonoro britânico e num bom exemplo da eficaz utilização do som por parte de Hitchcock.

Chantagem é baseado na peça com o mesmo nome de Charles Bennett, habitual colaborador de Hitchcock, mas foi o realizador (em conjunto com Benn W. Levy) que adaptou a peça ao grande ecrã. O filme contou ainda com a participação de outros dois habituais colaboradores de Hitchcock: Emile de Ruelle, responsável pela montagem, e Michael Powell. Powell, que viria a tornar-se num dos mais importantes realizadores ingleses, fez de tudo um pouco nos três filmes em que colaborou com o realizador: operador de câmara, director de fotografia, desenho de produção e até colaborou no argumento de Chantagem.

Uma das imagens de marca de Hitchcock é a sua breve aparição (cameo) nos seus próprios filmes e Chantagem tem uma das melhores aparições do realizador: aos 10 minutos, os personagens principais estão sentados numa carruagem de metro, quando um miúdo começa a brincar com o chapéu que o realizador usa e os dois praticamente começam a lutar.

Chantagem é um bom exemplo do trabalho de Hitchcock, em particular da sua fase inglesa, onde o realizador aborda alguns dos temas que viria a desenvolver ao longo da sua carreira. Nomeadamente, o do homem erradamente acusado, bem patente no final de Chantagem. O filme é também um bom exemplo da mestria de Hitchcock a nível técnico, com o realizador a utilizar eficazmente enquadramentos, planos, montagem e efeitos para construir o ambiente de suspense do filme.

Actualmente é possível comparar as duas versões (muda e sonora) do filme e, muito embora Hitchcock utilize de forma eficaz os efeitos sonoros, a versão muda é muito mais coerente. Para isso muito contribuíram as câmaras utilizadas: a da versão muda era muito mais leve e permitiu ao realizador utiliza-la de forma mais envolvente, enquanto a câmara da versão sonora era demasiado pesada para se mover durante a rodagem e obrigou o realizador a recorrer a planos estáticos. A comparação entre as duas versões permite constatar isso mesmo e ver a diferença de ritmo entre os planos. No entanto, e independentemente das versões, Chantagem é um excelente thriller que continua, passados mais de 75 anos após a sua estreia, a manter todo o interesse e constitui um marco da história do cinema.

Blackmail
British International Pictures. GB, 1929, 84m, Thriller.
Realizador: Alfred Hitchcock. Argumento: Alfred Hitchcock, Michael Powell e Benn Levy, a partir da peça de Charles Bennett. Actores: Anny Ondra, Sara Allgood, Charles Paton, John Longden, Donald Calthrop

Um detective da Scotland Yard e a sua namorada brigam e ela acaba por aceitar o convite de um artista para visitar o seu estúdio. Quando este lhe pede para pousar nua, a rapariga recusa e perante a tentativa de violação, ela acaba por matar o artista. A rapariga fica com remorsos e para piorar a situação, começa a ser chantageada por um homem que testemunhou o assassínio.

Revolta da Bounty (1935)

Revolta da Bounty é um dos grandes clássicos da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), sendo baseado na verdadeira viagem do barco H.M.S. Bounty, em 1787. A história foi romanceada por Charles Nordhoff e James Norman Hall, que escreveram três livros sobre os acontecimentos, o primeiro em 1932 e os restantes em 1934. Embora a história do Bounty tenha sido contada primeiro num filme mudo australiano de 1916, são os romances de Nordhoff e Hall que servem de base ao filme da MGM. No entanto, o filme não é a primeira a adaptação dos livros ao cinema: em 1933, Errol Flynn estreou-se no cinema ao protagonizar o herói Fletcher Christian, na produção australiana In the Wake of the Bounty.

Esta versão de 1935 começou a tomar forma quando o realizador Frank Lloyd adquiriu os direitos dos romances de Nordhoff e Hall com o objectivo de realizar o filme e interpretar o vilão da história. No entanto, quando vendeu os direitos à MGM, o responsável de produção do estúdio, Irving Thalberg, convenceu-o apenas a realizar o filme. Para interpretar o herói da história, Thalberg tinha em mente Clark Gable, uma das estrelas do estúdio, mas que, quando foi abordado, revelou muita relutância em participar no filme. Para além de não gostar de interpretar personagens de época, outra das resistências de Gable tinha a ver com a sua imagem de galã: para além de considerar que as roupas eram demasiado femininas, o actor não queria cortar o seu bigode, que era uma das suas imagens de marca (pelo facial era proibido pela marinha inglesa à época dos acontecimentos). Depois de muita insistência, Thalberg conseguiu convencer Gable, prometendo-lhe, caso Revolta da Bounty não fosse o filme de maior sucesso do actor, que nunca mais voltaria a insistir em que participa-se num filme que o actor não quisesse.

Uma vez que o argumento, a pedido de Thalberg, se centrava na relação conflituosa entre Fletcher Christian e o capitão Bligh, Thalberg apostou num actor que tivesse uma relação menos amistosa com Gable, para que o filme ganha-se com esse conflito. O primeiro actor em que Thalberg pensou foi Wallace Beery, mas este não quis passar o longo tempo das filmagens ao lado de Gable e recusou a proposta da MGM. Thalberg apostou, então, no actor inglês Charles Laughton, cuja homossexualidade confrontava a homofobia de Gable. Para complicar ainda mais a relação entre os dois actores, Laughton não gostava de Gable, pelo facto de este lhe ter “roubado” o Oscar de melhor interpretação em 1934, por Uma Noite Aconteceu.

Os problemas que ocorreram atrás das câmaras foram tão interessantes quantos os conflitos que o filme relata, não só pela relação conflituosa entre os dois protagonistas, mas também pelos muitos problemas que ocorreram durante a produção. Utilizando mais de 2.500 figurantes, uma extensa equipa técnica e diversas réplicas em tamanho real dos barcos, que tiveram de percorrer milhares de quilómetros até ao local de filmagem, no Taiti, Revolta da Bounty obrigou a uma complexa logística, agravada por diversos acidentes. Entre eles, um que envolveu os barcos na sua viagem até ao Taiti e que obrigou a uma demorada e dispendiosa reparação dos mesmos e o afundamento de um outro barco carregado de material e que provocou a morte de um dos técnicos. Os problemas não se circunscreveram ao local exterior de filmagem e quando a equipa regressou a Hollywood, deram conta que a película utilizada estava estragada, devido à más condições em que tinha sido armazenada. Houve, assim, a necessidade de filmar novamente as cenas e para não enviar actores e equipa técnica de volta para o Taiti, o estúdio decidiu filmar as cenas na Ilha de Catalina, ao largo de Los Angeles, o que prolongou a produção por mais quatro meses.

Com todos estes problemas, Revolta da Bounty custou cerca de 2 milhões de dólares, o maior orçamento da MGM desde Ben-Hur (1925), e levantou muitas dúvidas aos responsáveis do estúdio quanto à sua rentabilidade. No entanto, o filme revelou-se um verdadeiro sucesso de bilheteira, tendo sido um dos filmes mais lucrativos da década de 1930. Foi também um sucesso de crítica, com 8 nomeações para os Óscares, saindo vencedor na categoria de melhor filme. Três das nomeações do filme foram para melhor interpretação, tendo levado a Academia de Ciências a introduzir, no ano seguinte, as categorias de melhor actor secundário e melhor actriz secundária.

A interessante história original e o sucesso de Revolta da Bounty levantaram a possibilidade de diversas sequelas ao longo dos anos, mas o que viria a ser produzido, em 1962, foi um remake. Interpretado por Marlon Brando e Trevor Howard e também designado por Revolta da Bounty, o remake foi um verdadeiro fracasso de bilheteira e levou ao declínio da carreira de Brando. Em 1984, Mel Gibson e Anthony Hopkins participaram em The Bounty, não um remake, mas um filme baseado num outro livro sobre os mesmos acontecimentos.

O facto de Revolta da Bounty se manter como o mais conhecido de todas as versões cinematográficas da história, ter elevado o estatuto de estrela de Clark Gable e ter marcado a carreira de Charles Laughton, que ficou conhecido pela personagem que interpretou, são bons exemplos da qualidade do filme. Como curiosidade refira-se o facto de Revolta da Bounty ter como figurantes duas caras conhecidas: James Cagney, que participou no filme para ganhar dinheiro extra, uma vez que estava suspenso pela Warner Bros. na altura, e David Niven, um jovem na altura e em inicío de carreira.

Mutiny on the Bounty
Metro-Goldwyn-Mayer. Estados Unidos, 1935, 132 min., drama
Realização: Frank Lloyd. Argumento: Talbot Jennings, Jules Furthman, Carey Wilson, baseado nos livros de Charles Nordhoff e James Norman Hall. Interpretação: Charles Laughton, Clark Gable, Franchot Tone, Herbert Mundin, Eddie Quillan.

A tripulação do H.S.M. Bounty revolta-se contra o tirano capitão do barco.

Pamplinas Maquinista (1927)

O mais famoso filme do actor cómico Buster Keaton tem por base o livro Daring and Suffering: a History of the Great Railway Adventure, publicado em 1863 e republicado anos mais tarde sob o novo título The Great Locomotive Chase. O seu autor, William Pittinger foi um sobrevivente do assalto a uma locomotiva, de nome The General (O General), realizado por um grupo de soldados unionistas, no estado norte-americano da Geórgia. O livro é precisamente o relato desse assalto, que tinha por objectivo destruir as linhas de comunicação (linhas férreas, postes de telegrafo e pontes) para enfraquecer o inimigo. Caso o plano tivesse sucedido, a guerra civil americana teria acabado mais cedo, mas o assalto acabou em desastre quando a tripulação da locomotiva perseguiu os assaltantes e os interceptou: nove foram presos e os restantes acabaram por ser enforcados. Buster Keaton achou a história brilhante e decidiu adaptá-la ao grande ecrã (apenas transformando o herói em sulista) fazendo de Pamplinas Maquinista, um dos seus filmes mais pessoais.

Keaton nasceu no meio de uma família de comediantes e cedo começou a fazer parte das actuações do grupo famíliar. Quando este se desfez, Keaton teve a oportunidade de trabalhar com o comediante Fatty Arbucke num dos seus filmes e ai nasceu o fascínio de Keaton pelo cinema. A relação entre os comediantes floresceu e os dois realizaram cerca de 15 comédias, de duas bobines, entre 1917 e 1920. Posteriormente, Keaton teve a oportunidade de gerir o seu próprio estúdio e ai realizou diversas comédias de curta e longa duração, entre elas Pamplinas Maquinista.

A rodagem do filme decorreu no estado de Oregon, onde Keaton construiu o grandioso cenário (incluindo a ponte para a cena final, na altura, a mais cara alguma vez filmada), tendo sido necessário contratar 500 membros da Guarda Nacional, várias locomotivas de grande porte e transportar, de Los Angeles, 18 vagões de equipamento. O filme “traduz-se” numa longa perseguição e grande parte das cenas foram filmadas com uma câmara montada num carro que acompanhava a acção numa linha paralela. O filme vive essencialmente das peripécias de Keaton, que se tornam ainda mais impressionantes pelo facto do actor as interpretar ele mesmo, tendo, ao longo da sua carreira, dispensado sempre a utilização de duplos. Ao contrário de Chaplin, cujo humor é mais intimista, Keaton sempre teve um fascínio pela grandiosidade e Pamplinas Maquinista é um dos melhores exemplos disso: a utilização de grandes locomotivas como cenário da acção, os grandes planos sobre a paisagem e mesmo a recusa de Keaton em utilizar close-ups sobre si, são elementos típicos dos seus filmes.

Pamplinas Maquinista estreou nos Estados Unidos a 5 de Fevereiro de 1927 e foi um fracasso de bilheteira. Este fracasso prejudicou a carreira de Buster Keaton, que nunca mais gozou da mesma liberdade criativa e após dois ou três filmes como actor principal, teve de se contentar com papéis secundários e papéis em filmes de baixo orçamento, o que lhe trouxe problemas na sua vida pessoal, como o divórcio e o alcoolismo. Mas o tempo veio a fazer-lhe justiça e Pamplinas Maquinista é, hoje, muitas vezes citado nas listas dos melhores filmes da história do cinema. A sua mais valia é o humor físico de Keaton, o ritmo impressionante da acção (estamos a falar de um filme mudo de 1927) e uma história bem estruturada e interessante. Indispensável para os amantes da sétima arte.

Pamplinas Maquinista estreou em Portugal em 1929, na altura sob o título Glória de Pamplinas. No entanto, o filme foi re-batizado em 1965 para o título actual, quando foi novamente exibido nas salas de cinema.

The General
Buster Keaton Productions, United Artists. EUA, 1927, 75m, comédia
Realizador: Buster Keaton. Argumento: Clyde Bruckman e Buster Keaton. Actores: Buster Keaton, Marion Mack, Charles Smith, Frank Barnes, Joe Keaton. Estreia em Portugal: 11 de Fevereiro 1929 (Tivoli)

Durante a Guerra Civil Americana, espiões unionistas roubam uma locomotiva com o objectivo de destruir as linhas de comunicações inimigas, mas têm de enfrentar o condutor da locomotiva que a tenta recuperar.