Uma Alma Livre (1931)

Melodrama produzido antes da entrada em vigor do Código de Produção, onde a sensualidade e a ousadia são o motor do filme.

Na linha de filmes anteriores, Norma Shearer interpreta uma personagem sem preconceitos, que desafia a moral da sociedade e que tem em Clark Gable um “adversário” à altura. Ambos têm excelentes interpretações, mas é Gable o centro das atenções, nesta que é a sua estreia após ter assinado um contracto com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM). A reacção do público ao actor foi tal, que o filme o tornou numa estrela, a 8 anos de distância de E Tudo o Vento Levou, onde voltou a reencontrar Leslie Howard.

Vencedor do Óscar para melhor actor secundário (Lionel Barrymore), Uma Alma Livre chega até aos nossos dias como um interessante, mas tépido melodrama, que vale pela ousadia que os estúdios de Hollywood demonstravam antes da entrada em vigor do Código de Produção.

Em 1953, a MGM volta à história de Adela Rogers St. Johns, num remake protagonizado por Elizabeth Taylor e Fernando Lamas, intitulado The Girl Who Had Everything.


A Free Soul
Metro-Goldwyn-Mayer.EUA, 1931, 93 min., drama. Realizador: Clarence Brown. Argumento: John Meehan, Becky Gardiner, Willard Mack, baseado no romance de Adela Rogers St. Johns. Actores: Norma Shearer, Leslie Howard, Lionel Barrymore, James Gleason, Clark Gable. Estreia em Portugal: 28 de Março 1933 (Odeon, Palácio)

A filha de um advogado alcoólico apaixona-se por um mafioso, cliente do seu pai.

Umberto D. (1952)

Quatro anos após Ladrões de Bicicletas, e O Milagre de Milão pelo meio, Vittorio de Sica regressa às origens e realiza Umberto D., o capítulo final da sua trilogia neo-realista (o primeiro filme é Sciuscià).

À semelhança dos filmes anteriores, De Sica volta a colaborar com o argumentista, e um dos mentores do movimento italiano, Cesare Zavattini. Com um pequeno orçamento e actores não profissionais, De Sica constrói um verdadeiro retrato da vida comum, abordando temas universais como a pobreza e a indiferença da sociedade perante os idosos mais desprotegidos. Neste cenário, e contrariando um pouco a filosofia neo-realista, De Sica faz de Umberto D. o filme mais emotivo da trilogia e um filme verdadeiramente intemporal.

Considerado por muitos o último grande exemplo do neo-realismo, Umberto D., tal como os restantes filmes da trilogia, foi criticado na sua terra natal pela sua visão negativa da realidade italiana e revelou-se um fracasso de bilheteira. No entanto, o filme foi aclamado internacionalmente, também à semelhança dos filmes anteriores, e ganhou diversos prémios internacionais e uma nomeação para o Óscar de melhor argumento.


Dear Film. Itália, 1952, 89 min, drama. Realizador: Vittorio De Sica. Argumento: Cesare Zavattini, baseado na sua história. Actores: Carlo Battisti, Maria-Pia Casilio, Lina Gennari, Ileana Simova, Elena Rea

Um funcionário do estado reformado, que vive apenas acompanhado do seu cão Flick, tenta arranjar dinheiro para pagar a renda.

Ladrões de Bicicletas (1948)

Segundo filme da trilogia neo-realista de Vittorio de Sica (os restantes são Sciuscià (1946) e Umberto D. (1952), Ladrões de Bicicletas é considerado o expoente máximo do movimento e resulta da colaboração entre o realizador e o argumentista Cesare Zavattini, um dos principais mentores do neo-realismo italiano. Zavattini apresentou o romance homónimo de Luigi Bartolini a De Sica e os dois viram nele a base para mais uma obra sobre a realidade italiana. De todas as adaptações do romance, nenhuma foi tão “desrespeitadora” em relação ao original como a de De Sica e Zavattini, tendo realizador e argumentista transformado a obra numa odisseia carregada de metáforas, em que a bicicleta é o “veiculo” para organizar a narrativa.

O financiamento de Ladrões de Bicicletas revelou-se difícil, particularmente após o falhanço comercial de Sciuscia. Uma das possibilidades de financiamento veio do produtor norte-americano David O. Selznick (E Tudo o Vento Levou), mas na condição de que o protagonista fosse interpretado por… Cary Grant! De Sica não aceitou e eventualmente conseguiu financiamento em Itália, dando, então, inicio ao casting do filme.

Seguindo as regras do neo-realismo, De Sica utilizou actores não profissionais no filme e organizou um grande casting para encontrar os seus protagonistas. No entanto, estes foram descobertos por acaso: Lamberto Maggiorani, que interpreta a personagem de Antonio Ricci, foi descoberto quando acompanhava os seus dois filhos ao casting para o personagem de Bruno Ricci e Enzo Staiola foi descoberto entre a multidão, que assistia ao primeiro dia de filmagens, nas ruas de Roma. Embora não tivessem nenhuma experiência como actores, Maggiorani e Staiola têm excelentes interpretações, muito devido às indicações do realizador, que contou com a sua experiência de actor (De Sica iniciou a sua carreira cinematográfica como ídolo de matines) para “moldar” os seus protagonistas.

Ao contrário do que seria de esperar, a rodagem de Ladrões de Bicicletas foi bastante elaborada e envolveu uma considerável equipa de profissionais. O generoso orçamento permitiu cenas em grande escala, centenas de figurantes e até o equipamento necessário para produzir chuva artificial. Como exemplo, refira-se que uma das principais cenas do filme (o roubo da bicicleta) envolveu seis câmaras a filmarem simultaneamente. Esta grandeza e planeamento “chocavam”, de acordo com alguns críticos, com os princípios de verdade do neo-realismo. No entanto, o movimento não defendia a falta de argumento ou estilo, bem pelo contrário.

Muito embora, De Sica se revele um extraordinário e inventivo realizador, fazendo de Ladrões de Bicicletas um filme completamente oposto ao de uma produção de Hollywood, a verdade é que as maiores influências do realizador são americanas: King Vidor e Charlie Chaplin. Essa influência deve-se ao recorrente tema da classe trabalhadora, que percorre a filmografia de ambos os realizadores americanos. É visível a influência de ambos no trabalho de De Sica e o trabalho deste, em particular Ladrões de Bicicletas, é uma homenagem a eles, nomeadamente a Chaplin, que era também um confesso admirador do realizador italiano.

Com Ladrões de Bicicletas e a filosofia neo-realista, De Sica propôs-se fazer um dos melhores filmes do mundo à época, mas o público e a crítica italiana não aceitaram bem o filme, criticando a visão pessimista do realizador. No entanto, o filme foi aclamado internacionalmente, tendo ganho um Óscar honorífico para melhor filme estrangeiro e foi eleito, em 1952, o melhor filme de todos os tempos, na primeira sondagem internacional da conhecida revista britânica Sight & Sound. A sondagem é realizada a cada dez anos e desde então Ladrões de Bicicletas é presença regular na listagem. O sucesso internacional fez com que o filme fosse distribuído uma segunda vez em Itália, mas, mais uma vez, revelou-se um fracasso.

Expoente máximo do neo-realismo, Ladrões de Bicicletas é muito mais do que o movimento e a época em que se enquadra, revelando qualidades e uma frescura, ainda hoje, que o elevam e fazem dele uma referência na história da sétima arte.


Ladri di Biciclette
Produzioni de Sica. Itália, 1948, 93 min, drama. Realizador:Vittorio De Sica. Argumento: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Suso Cecchi d’Amico, Oreste Biancoli, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri; baseado no romance de Luigi Bartolini. Actores:Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari

Antonio Ricci e o seu filho percorrem a cidade de Roma à procura da sua bicicleta, que foi roubada e de que necessita para trabalhar.