Os “ratos” de Hollywood

Na década de 1950 e 1960, um grupo de actores dominava Hollywood, com os seus filmes, espetáculos, musicais e…festas. Frank Sinatra era o rosto mais visível do grupo que ficou conhecido pela expressão “Rat Pack” e que incluía Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop. Maioritariamente masculino, o grupo também incluía mulheres, designadas de “mascotes”, entres as quais Shirley Maclaine e Angie Dickinson.

A expressão “Rat Pack” (grupo de ratos) foi utilizada por jornalistas para designar o grupo, que se auto intitulava de “clã” ou “summit“, e tem origem num outro grupo de amigos que, anos antes, se centrava à volta de Humphrey Bogard, Lauren Bacall e de um jovem Frank Sinatra. O grupo de Bogard e Bacall ficou conhecido pela sua independência perante o poder estabelecido em Hollywood e pretendia quebrar a rotina e a monotonia reinante na cidade. Embora informal, o grupo tinha a sua organização (por exemplo, Bacall era a “mãe” do grupo, enquanto Bogard era o responsável pelas relações públicas), numa clara paródia a Hollywood. O ponto de encontro do grupo era a casa do casal, designada de Holmby Hills Rat Pack e de onde advém o nome do grupo, tendo a expressão sido utilizada pela primeira vez por Bacall, após uma noitada de Bogard em Las Vegas com os amigos. Este primeiro grupo incluía ainda: David Niven, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Cary Grant, entre outros.

Com a morte de Bogard no final dos anos 50, o grupo perdeu um dos seus membros mais carismáticos, mas outro assumiu preponderância: Frank Sinatra, que com os seus amigos de Las Vegas constituiu um segundo “Rat Pack”. Embora Bacall fosse a “ponte” que unia os dois grupos, o liderado por Sinatra era bem diferente do primeiro, mas o espírito de camaradagem mantinha-se.

O grupo da década de 60 desempenhou um importante papel no desenvolvimento de Las Vegas, não só pela sua “política” de nunca actuar em locais que descriminassem negros, mas também pelos seus espectáculos. Quando um dos membros do grupo tinha um espectáculo agendado era comum os restantes aparecerem de surpresa e actuarem em conjunto. Esta situação levava a que os espectadores esperassem horas pelos espectáculos, muitas vezes na rua ou na entrada dos hotéis esgotados. A popularidade do grupo permitiu estabelecer Las Vegas com uma das capitais do entretenimento e deu ao grupo um grande poder junto dos casinos e na… política, sendo conhecidas as suas ligações ao ex-Presidente John F. Kennedy.

Para além dos espectáculos, o grupo surgiu também em filmes, sendo possível identificar cerca de 11 onde dois ou mais membros do grupo trabalharam em conjunto:

  • A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1956)
  • Deus Sabe Quanto Amei (1958)
  • Never So Few (1959)
  • Os Onze de Oceano (1960)
  • Sergeants 3 (1962)
  • 4 for Texas (1963)
  • Os Sete Ladrões da Cidade (1964)
  • Divórcio à Americana (1965)
  • Dois Contra o Texas (1966)
  • A Corrida Mais Louca do Mundo (1981)
  • A Corrida Mais Louca do Mundo II (1984)

De todos, Os Onze de Oceano é o filme mais emblemático do grupo, reflectindo a sua imagem irreverente e onde participam todos os membros do grupo, inclusive as actrizes Angie Dickinson e Shirley Maclaine.

Em meados da década de 60, a popularidade do grupo começa a decrescer, resultado da contra-cultura que iria marcar o final dos anos 60 e início dos anos 70. Muito embora o seu declínio, os membros do grupo mantiveram-se unidos e continuaram a participar em espectáculos musicais e em alguns filmes.

A influência do “Rat Pack” foi tal que as suas histórias (muitas delas inventadas) entraram para o folclore da cidade dos sonhos e o grupo ainda hoje é relembrado através de recriações e tributos. Esta popularidade foi acentuada pelo remake de Os Onze de Oceano (Ocean’s Eleven – Façam as Vossas Apostas, realizado em 2001), que popularizou ainda mais a fama à volta do grupo liderado por Sinatra.

Charlie Chan

Detective de origem chinesa da Polícia de Honolulu, Charlie Chan é uma personagem criada pelo escritor Earl Derr Biggers em 1923 e que foi adaptada ao cinema 57 vezes, tendo também surgido em programas de rádio, peças de teatro, televisão, entre outros.

Earl Derr Biggers criou a personagem com base em Chang Apana e Lee Fook, dois sargentos de origem chinesa da polícia de Honolulu, que o escritor conheceu quando passava férias no Havai, em 1919. Biggers concebeu a personagem como uma alternativa ao, então, estereótipo de personagens chinesas, tornando-a numa pessoa amável e do lado da lei. No entanto, a personagem não é a principal no primeiro livro em que surge (The House Without a Key), mas o sucesso da obra fez com que Biggers escrevesse uma nova história, então sim, protagonizada por Charlie Chan. Esta segunda obra (The Chinese Parrot) torna-se um sucesso ainda maior e Biggers passou a dedicar-se em exclusivo aos livros de Charlie Chan.

O sucesso dos livros chamou a atenção da indústria cinematográfica, que rapidamente os adaptou ao grande ecrã. A primeira versão cinematográfica com a personagem de Charlie Chan foi o serial de 10 episódios The House Without a Key, produzido pela Pathé Exchange em 1926. No ano seguinte, a Universal Pictures produz The Chinese Parrot e, em comum, as duas produções têm o facto de serem mudas, Charlie Chan ser interpretado por actores asiáticos e este não ser a personagem principal dos filmes.

Em 1929, a Fox Film Corporation adquire os direitos cinematográficos da terceira obra de Biggers (Behind That Curtain) e produz a sua adaptação cinematográfica. No entanto, Charlie Chan ainda não surge como a personagem principal e é interpretada pelo actor coreano E.L. Park. Apenas no segundo filme da Fox (*Charlie Chan Carries On**) é que o sucesso chega, dando início à série de filmes mais conhecida de Charlie Chan e que resultou num total de 44 filmes. Curiosamente, o sucesso foi alcançado num filme em que a personagem é interpretada por um actor branco, Warner Oland. O actor sueco viria a vestir a pele do detective chinês por mais 15 vezes e a sua interpretação gentil e amável (que é um pouco diferente do original de Biggers) ajudou ao sucesso dos filmes e à popularidade da personagem. Aliás, o sucesso dos filmes de Charlie Chan permitiu à Fox sobreviver ao período difícil que o estúdio atravessou durante a Grande Depressão.

A morte de Warner Oland, em 1938, não interrompeu a série de filmes, tendo a Fox apostando noutro actor branco para interpretar o detective asiático, o americano Sidney Toler. Este interpreta um Charlie Chan mais próximo do original de Biggers e viria a interpretar a personagem em todos os filmes produzidos pela Fox, até esta suspender a produção da série em 1942. Toler compra, então, os direitos sobre a personagem e a Monogram Pictures, um dos mais famosos estúdios da Poverty Row, decide continuar a produção da série, com Toler como protagonista. A Monogram era uma produtora de filmes B e é isso mesmo que os novos filmes de Charlie Chan passam a ser, cuja qualidade reflecte o orçamento médio de 75 mil dólares de cada filme (na Fox, o orçamento médio era de 200 mil dólares).

Sidney Toler morre em 1947, após interpretar a personagem de Charlie Chan em 22 filmes (11 em cada estúdio) e Roland Winters substitui-o nos últimos 6 filmes produzidos pela Monogram, o último dos quais em 1949. Nas três décadas seguintes Charlie Chan não surge no grande ecrã e só em 1981 é que se assiste a uma nova adaptação do personagem, desta vez interpretado por Peter Ustinov (Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen).

Embora a série de filmes produzida pela Fox e pela Monogram seja a mais conhecida, a personagem de Charlie Chan surgiu em outros filmes, nomeadamente em versões em língua espanhola e numa série de filmes produzidos, primeiro em Xangai e, depois, em Hong-Kong. O primeiro filme em espanhol (Eran Trece) foi uma adaptação do primeiro filme da Fox (Behind That Curtain), produzido ao mesmo tempo que a versão em inglês, mas com pequenas alterações no argumento. Os dois restantes filmes em língua espanhola são a produção cubana La Serpiente Roja, de 1937, e El Monstruo en la Sombra, uma produção mexicana de 1955.

Os filmes asiáticos foram produzidos durante a década de 30 e 40 e as histórias continham elementos diferentes do original de Biggers. Os 6 filmes produzidos revelaram-se um grande sucesso e a popularidade de Charlie Chan na China, onde os filmes americanos também foram exibidos com igual sucesso, deveu-se ao facto de, pela primeira vez, uma personagem chinesa ser vista de forma tão positiva, fugindo do habitual estereótipo de vilão.

Ao longo das décadas, a personagem de Charlie Chan tem sido alvo de diversas interpretações, críticas e controvérsia, discutindo-se se a personagem é um modelo positivo ou se é um estereótipo ofensivo. Muitas têm sido as opiniões e, actualmente, a personagem tem sido vista de uma forma mais negativa. No entanto, a verdade é que os seus filmes revelaram-se bastante populares (e ainda hoje o são), tendo ajudado a alterar a forma como a sociedade norte-americana via, na época, os cidadãos chineses.

Lista dos 44 filmes com a personagem Charlie Chan, que compõem a série produzida, primeiro, pela Fox Film e, depois, pela Monogram Pictures:

01 – Charlie Chan Carries On (1931)
02 – The Black Camel (1931)
03 – Charlie Chan’s Chance (1932)
04 – O Cofre Misterioso (1933)
05 – A Coragem de Charlie Chan (1934)
06 – Charlie Chan em Londres (1934)
07 – Charlie Chan em Paris (1935)
08 – Charlie Chan no Egipto (1935)
09 – Charlie Chan em Xangai (1935)
10 – Charlie Chan na Califórnia (1936)
11 – Charlie Chan no Circo (1936)
12 – Charlie Chan nas Corridas (1936)
13 – Charlie Chan na Ópera (1936)
14 – Charlie Chan nos Jogos Olímpicos (1937)
15 – Charlie Chan na Broadway (1937)
16 – Charlie Chan em Monte Carlo (1938)
17 – Charlie Chan em Honolulu (1939)
18 – Charlie Chan na Pista do Criminoso (1939)
19 – Charlie Chan na Ilha do Tesouro (1939)
20 – Charlie Chan in City in Darkness (1939)
21 – Charlie Chan no Panamá (1940)
22 – Charlie Chan’s Murder Cruise (1940)
23 – Charlie Chan at the Wax Museum (1940)
24 – Murder Over New York (1940)
25 – Dead Men Tell (1941)
26 – Charlie Chan no Rio (1941)
27 – Castle in the Desert (1942)
28 – Serviço Secreto (1944)
29 – O Gato Chinês (1944)
30 – Casa Enfeitiçada (1944)
31 – The Jade Mask (1945)
32 – A Bala de Sangue (1945)
33 – The Shanghai Cobra (1945)
34 – The Red Dragon (1945)
35 – Dark Alibi (1946)
36 – Shadows Over Chinatown (1946)
37 – Dangerous Money (1946)
38 – The Trap (1946)
39 – The Chinese Ring (1947)
40 – Docks of New Orleans (1948)
41 – The Shanghai Chest (1948)
42 – The Golden Eye (1948)
43 – The Feathered Serpent (1948)
44 – The Sky Dragon (1949)

Nota: filmes com título em inglês não estrearam, à época, em Portugal

Powerty Row

Numa época em que as “imagens em movimento” se revelavam um entretenimento cada vez mais popular, em particular junto das classes de menores rendimentos, a indústria cinematográfica norte-americana da década de 1910 era dominada pela Motion Pictures Patents Corporation (MPPC), cujas práticas aguerridas não davam espaço a empresas independentes que não seguiam as suas regras comerciais.

Perante o domínio da MPPC, sediada em Nova-Iorque, apenas restou a alguns produtores “fugirem” para o outro lado do país, onde estabeleceram empresas e estúdios que aproveitavam a luz da Califórnia, em particular de Los Angeles. Para além de não estarem sujeitos às regras da MPPC, os produtores da Califórnia também perceberam que o gosto do público estava a mudar e começaram a produzir filmes mais longos e com ouros temas que não as comedias (género dominante nos nickelodeons). Perante esta nova realidade, muitos viram a oportunidade de entrar na industria e surgiram, então, muitas novas produtoras. As que não tinham muito dinheiro aproveitaram a zona industrial da rua North Gower, a norte de Hollywood, para se estabelecerem. Esta zona ficou, então, conhecida como a Poverty Row (linha da pobreza) e o nome passou a designar todas as produções de baixo orçamento que saiam das produtoras que se estabeleceram nessa zona de Los Angeles.

Na década de 1920 assiste-se à consolidação da industria cinematográfica americana, em que os diversos sectores (produção, distribuição e exibição) se encontram dominados por cinco grandes estúdios e dois “menores”. Perante este cenário, pouco restava aos independentes que não venderem os seus filmes para salas de cinema de província ou como filmes B em sessões duplas. Os lucros desta área de negócio era fixo e muito pequeno, o que não permitia às produtoras da Poverty Row grande margem de manobra e, por isso, muitas tiveram uma curta existência. Assim, é possível contabilizar perto de uma centena de produtoras que se estabeleceram na Poverty Row, muitas delas apenas produziram um filme.

A (muito) limitada capacidade financeira das produtoras da Poverty Row não permitia que conseguissem utilizar a mais recente tecnologia ou que conseguissem inovar a nível estético e a sua existência quase sempre se resumiu, nas melhores da hipótese, a uma nota de rodapé nos livros sobre a história do cinema. No entanto, da Poverty Row sairam interessantes filmes, alguns deles com uma estética própria, e serviu de plataforma para muitos actores, realizadores e muitos outros criativos conseguirem alcançar voos mais altos. Como exemplo, refira-se que John Wayne protagonizou dezenas de filmes de diversas produtoras da Poverty Row antes de ganhar fama, Gene Autry ganhou também fama nos westerns da Republic Pictures, um jovem Mickey Rooney alcançou sucesso na Larry Darmour Productions e um dos maiores film-noir da história do cinema é Detour, que Edgar G. Ulmer realizou para a Producers Releasing Corporation. Mas o maior exemplo da importância da “Poverty Row” é o facto da Columbia Pictures, que posteriormente se tornou numa das majors de Hollywood, ter começado como uma pequena produtora na rua North Gower.

O fim das sessões duplas, na década de 1950, como consequência do fim do monopólio dos grandes estúdios, provocam um rude golpe para uma Poverty Row já de si frágil. O novo paradigma, que entretanto se estabelecera na industria do cinema (separação entre a produção e exibição) e a ameaça da televisão provocou o fim da Powerty Row.

Das dezenas de produtoras que se estabeleceram na rua North Gower, as mais importantes, quer pela quantidade, quer pela “qualidade” da sua produção, foram:

First National (1917 – 1936)

Empresa formada por um grupo de donos de salas de cinema que estavam contra a pratica de block-booking da Paramount Pictures, de Adolph Zukor. Esta prática, que obrigava os donos de cinemas a comprar um conjunto de filmes menores para conseguirem um filme de maior qualidade, reduzia a margem de manobra dos exibidores e reduzia, também, drasticamente o seu lucro.

A First National não dispunha, no início, de estúdios. Ao invés, contratava estrelas, que produziam os seus próprios filmes (Charlie Chaplin, que na First National produziu The Kid, e Mary Pickford foram apenas algumas das estrelas da empresa). No entanto, a luta que manteve com Adolph Zukor ao longo dos anos, obrigou a First National a construir os seus próprios estúdios e a transforma-se numa empresa vertical, incorporando produção, distribuição e exibição.

Através de diversas aquisições, a Warner Bros. passa, em 1928, a controlar a First National e durante os oito anos seguintes mantém a empresa autónoma, até que a dissolve em 1936.

Grand National Films (1936 – 1940)

A Grand National foi fundada por antigos executivos da Pathé e com o financiamento desta. Na sua curta existência, a Grand National produziu essencialmente westerns, nomeadamente com o cowboy cantor Tex Ritter, e comédias. No entanto, o grande feito da empresa foi a contratação do actor James Cagney, na altura em conflito contratual com a Warner Bros. Cagney apenas protagonizou, sem sucesso, dois filmes na Grand National, que, em 1938, entrou em processo de falência e foi reorganizada sob o nome Grand National Pictures. Os problemas financeiros continuaram e, em 1940, a Grand National vende os seus bens e fecha portas.

Majestic Pictures (1930-1935)

A Majestic Pictures sempre se diferenciou das restantes empresas da Poverty Row devido à qualidade das suas produções. Sem estúdio próprio, a qualidade dos filmes eram resultado do acordo que a Majestic tinha com a Metro-Goldwyn-Mayer e que permitiu utilizar talento da casa do leão. Para além disso, muitas das origens das produções da Majestic tinham por base fontes literárias, o que permitia que os seus filmes ganhassem outra dimensão. No entanto, a qualidade das produções (para uma produtora independente) teve o seu custo e a Majestic não conseguiu aguentar muito tempo, já que também não produzia outros tipos de filmes, como serials, que lhes permitisse um fluxo constante de receitas.

Mascot Pictures (1927 – 1937)

A Mascot Pictures começou como produtora de serials, que ainda hoje são recordados pelos amantes da sétima arte. A produção de longas-metragens apenas teve inicio nos primeiros anos da década de 1930 e ganhou fama com as “estrelas” animais Rin-Tin-Tin, Jr. e Rex the Horse. No entanto, a empresa é mais recordada pelos filmes de um, ainda jovem, John Wayne.

Em 1935, a Mascot é fundida com a Monogram e a Consolidated Laboratories, que, dois anos mais tarde, formam a Republic Pictures.

Monogram Film (1930 – 1953)

A Monogram sempre assumiu o seu estatuto de produtora de filmes de baixo orçamento e ficou conhecida pelos filmes de aventuras, terror e westerns, entre eles os produzidos por Paul Mavern e protagonizados por John Wayne.

Em 1935, os responsáveis da Monogram fundem a empresa com outras produtoras e criam a Republic Pictures, mas dificuldades criatívas levam-nos a sair e a reactivar a Monogram. Dez anos depois, a Monogram cria a subsidiária Allied Artists com o objectivo de produzir filmes de melhor qualidade e com maior orçamento, mas as duas empresas fundem-se em 1953, sob a designação Allied Artists Pictures Corporation.

Producers Releasing Corporation (1939 – 1949)

Um dos estúdios mais conhecidos da Poverty Row, a PRC tem a sua origem na Producers Distributing Company (PDC) e na Producers Pictures Corporation (PPC), de Ben Judell. Em 1939, este empresário criou as duas empresas (a PDC distribuía os filmes produzidos pela PPC) para alimentar as salas de cinema fora do circuito das majors e colmatar o vazio deixado pela falência de empresas que não resistiram à Grande Depressão, como a Grand National Pictures.

Sob a direcção de Sigmund Neufeld, a PDC produziu apenas sete filmes antes de problemas financeiros ameaçarem a empresa. Um ano após a criação da PDC e com a ajuda da Pathe, Sigmund e o seu irmão Sam tomaram conta da empresa e reorganizaram-na sob o novo nome de Producers Releasing Corporation (PRC). Apostando no mesmo mercado que a PDC, a produção da PRC abrangia todos os géneros cinematográficos, desde que os filmes fossem rápidos a produzir e baratos. Um dos principais “activos” do estúdio era o realizador Edgar G. Ulmer, cuja criatividade e conhecimentos permitiu que a PRC produzisse filmes interessantes e que tiveram sucesso junto do público. Detour foi um desses filmes: realizado por Ulmer, o filme foi um dos mais baratos da PRC, mas tal não o impediu de ser uma referência do film-noir.

A saída de várias pessoas da empresa, incluindo Ulmer, e a queda do mercado de filmes B levou à decadência da PRC, que, em 1948, foi absorvida pela empresa inglesa Eagle-Lion Films, tendo deixado de existir um ano depois. Ao longo dos anos, a constante mudança dos direitos de autor fizeram com que os filmes da PRC caíssem no esquecimento. Apenas um reavivar do interesse no trabalho de Edgar G. Ulmer, em particular Detour, é que tem permitido um renovado interesse nos filmes da empresa.

Embora seja muitas vezes referido como um dos mais fracos estúdios de Hollywood, a PRC sempre foi “honesta” na sua produção: os seus filmes nunca esconderam o fraco orçamento que tinham e muitos deles são verdadeiros hinos à criatividade.

Republic Pictures (1935 – década de 1950)

Produtora americana fundada em 1935 a partir das empresas Consolidated Film Industries, Mascot, Monogram Pictures e Liberty. Conhecida pelos seus filmes de baixo orçamento mas de qualidade (alguns dos quais considerados para os Óscares), a Republic teve sob contrato actores como John Wayne, Roy Rodgers e Gene Autrey, que ai interpretaram alguns dos melhores westerns da produtora e da história do cinema. Com o aparecimento da televisão na década de 50, a produtora entra em crise, encontrando a sua sobrevivência precisamente na produção de programas de televisão.

Embora o nome da Republic Pictures e o seu logo ainda hoje existam e sejam utilizados oficialmente, nomeadamente na reedição de filmes, a empresa, tal como ficou conhecida pelas suas produções de baixo orçamento, deixou de existir na década de 1950, quando deixou de produzir para o grande ecrã.