Quem é Allen Smithee?

Allen Smithee é um pseudónimo utilizado por realizadores que desejavam ver o seu nome retirado de um filme. O nome, instituído pela Associação de Realizadores da América (Director Guild of America – DGA), apenas podia ser utilizado quando o realizador conseguia provar, perante a DGA, de que que tinha perdido o controlo criativo do filme, muitas vezes devido à interferência dos produtores. O realizador era obrigado a manter a razão da discórdia em segredo e a utilização do pseudónimo não podia ser utilizado para esconder falhanços comerciais de um filme.

O nome foi utilizado pela primeira vez no filme A Morte de um Pistoleiro (1969), cujo primeiro realizador (Robert Totten) foi substituído por Don Siegel. Ambos os realizadores ficaram insatisfeitos com o resultado final e nem um nem outro quis o seu nome associado ao filme. O primeiro nome proposto para constar na ficha técnica foi Al Smith, mas já existia um realizador registado na DGA com esse nome, tendo sido decidido o nome Allen Smithee. Curiosamente, o filme revelou-se um sucesso, incluindo junto dos críticos que elogiaram o trabalho de Allen Smithee.

Em 1997, Joe Eszterhas pegou no nome e escreveu o filme An Allen Smithee Film, que conta a história de um realizador desiludido com um filme e procura retirar o seu nome da ficha técnica, mas não consegue porque o seu nome é… Allen Smithee. O filme revelou-se um verdadeiro fiasco e a má publicidade associada (ajudada pelo facto de o realizador Arthur Hiller ter o utilizado o pseudónimo Allen Smithee) levou a DGA a terminar a utilização do nome. A partir de então a Associação decide caso a caso o pseudónimo a utilizar, como foi o caso do filme Supernova (2000), em que o realizador Walter Hill utilizou o pseudónimo Thomas Lee.

Charlie Chaplin na Essanay Film

Charlie Chaplin é um dos grandes artistas do século XX e sua longa carreira de mais de 70 anos de actividade e mais de 80 filmes realizados, produzidos e interpretados são reveladores de uma capacidade criadora excepcional e ímpar na história da Sétima Arte. Desta sua longa carreira, o período menos conhecido do actor é o que trabalhou na Essanay Films e onde “apenas” produziu 14 filmes, por vezes considerados obras menores. Embora não sejam realmente obras emblemáticas, são filmes reveladores de um importante período de aprendizagem e crescimento do artista.

Charlie Chaplin nasceu no meio de uma disfuncional família de artistas e cedo teve a necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro. O palco surgiu naturalmente para Chaplin, que alcançou sucesso numa trupe de artistas. Como acontecia muitas vezes na época, o passo seguinte foi as imagens em movimento: uma nova indústria sedenta por caras e números novos, onde Chaplin descobriu o meio perfeito para se expressar, mantendo o controlo que sempre exigiu.

A entrada de Charlie Chaplin na nova indústria deu-se através da Keystone Studios onde tomou conhecimento da técnica necessária para contar uma história e onde começou a moldar a que viria a ser a sua personagem icónica: O Vagabundo. A adaptação ao novo meio foi tão natural que Chaplin rapidamente se tornou num sucesso e quando foi altura de renovar o seu contrato com a Keystone, as suas exigências salariais dispararam e o actor acabou por assinar um contrato milionário com a Essanay Films.

Chaplin chegou à Essanay em 1915 e ainda de forma anónima, uma vez que, à época, os actores de cinema eram apenas rostos e não tinham um nome e uma persona associada. No entanto, Chaplin era já considerado o homem mais divertido das imagens em movimento e a sua chegada a Chicago, sede da Essanay, criou grandes expectativas. No entanto, Chaplin apenas produziu o primeiro filme na cidade, já que as condições meteorológicas, em particular o vento pelo qual a cidade é conhecida, não eram as melhores para a produção cinematográfica. Assim, logo após terminar His New Job, Chaplin decidiu mudar-se para os novos estúdios da Essanay na Califórnia, que devido às suas excelentes condições climatéricas e cenário natural, se estava a tornar no grande centro cinematográfico americano.

As condições de trabalho que Chaplin disponha na Essanay eram únicas na indústria e o facto de ter um estúdio exclusivo e de trabalhar em secretismo eram reflexo disso mesmo. Os seus filmes não tinham argumento, apenas existiam esboços e ideias, que Chaplin, ao seu próprio ritmo, ia desenvolvendo e melhorando. Muito embora este método de trabalho, os filmes de Chaplin revelam espontaneidade, mas este processo mais elaborado e ponderado fez com que Chaplin apenas produzisse 14 filmes ao longo do ano e meio em que esteve na Essanay, cerca de metade dos filmes que fez na Keystone. No entanto, esse período foi aproveitado para tornar os seus filmes mais sofisticados e com personagens mais completas. São nítidas as inovações que o artista introduziu nos seus filmes e as contribuições que deu para a evolução do género. Um dos conceitos que Chaplin mais desenvolveu, neste período, foi o de páthos (a empatia ou paixão criada pela representação artística), que se tornaria muito importante ao longo da sua carreira e cujo risco não passou despercebido, tendo o artista sido criticado por isso. O período de Chaplin na Essanay revelou-se, assim, importante para o artista, mas o contrário também é verdade, já que a empresa, hoje em dia, é mais recordada pelos filmes do actor do que pela restante produção.

A Essanay foi fundada em 1907 por George K. Spoor e Gilbert A. Anderson e o seu nome deriva da primeira letra do último nome dos dois fundadores. A empresa tinha sob contracto alguns actores conhecidos e populares, mas os seus filmes nunca saíram da mediania e a contratação de Chaplin foi realmente o ponto alto da existência da empresa. Os filmes de Chaplin tinham tudo o que os restantes filmes da Essanay não tinham e, por isso, eram os mais procurados pelos exibidores. Perante esta procura, a Essanay começou a exigir que, por cada filme de Chaplin comprado, os exibidores tinham de adquirir um outro filme do catálogo da empresa. Esta prática, contestada na época, tornou-se tão comum que se mantém nos dias de hoje. Os nomes da Essanay e de Chaplin juntos eram tão fortes e populares, que alguns exibidores recuperaram os filmes do actor na Keystone e rebaptizaram-nos de “Apresentações Essanay”.

Muito embora o sucesso, o ano e meio de Chaplin na Essanay foi um período de constante tensão entre o actor e os responsáveis da empresa: enquanto Chaplin queria evoluir e desenvolver novos conceitos cinematográficos, a Essanay via as “imagens em movimento” como uma fábrica, produzindo filmes em série. Aquando da renovação do contracto, Chaplin exigiu um salário de dez mil dólares por semana e não foi surpresa a resposta negativa da Essanay. Como consequência, Chaplin abandonou a empresa e assinou um contracto com a Mutual Film Corporation, onde viria a solidificar o seu sucesso. Por seu lado, a Essanay entraria numa fase difícil que levaria ao seu fim: para além de perder a sua grande estrela, foi processada, em conjunto com as restantes empresas que faziam parte da Motion Pictures Patents Company, por violar leis antimonopólio. Em 1918, a Essanay fechou as suas portas, sendo, hoje, recordada precisamente pelos filmes de Charlie Chaplin.

Os “ratos” de Hollywood

Na década de 1950 e 1960, um grupo de actores dominava Hollywood, com os seus filmes, espetáculos, musicais e…festas. Frank Sinatra era o rosto mais visível do grupo que ficou conhecido pela expressão “Rat Pack” e que incluía Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop. Maioritariamente masculino, o grupo também incluía mulheres, designadas de “mascotes”, entres as quais Shirley Maclaine e Angie Dickinson.

A expressão “Rat Pack” (grupo de ratos) foi utilizada por jornalistas para designar o grupo, que se auto intitulava de “clã” ou “summit“, e tem origem num outro grupo de amigos que, anos antes, se centrava à volta de Humphrey Bogard, Lauren Bacall e de um jovem Frank Sinatra. O grupo de Bogard e Bacall ficou conhecido pela sua independência perante o poder estabelecido em Hollywood e pretendia quebrar a rotina e a monotonia reinante na cidade. Embora informal, o grupo tinha a sua organização (por exemplo, Bacall era a “mãe” do grupo, enquanto Bogard era o responsável pelas relações públicas), numa clara paródia a Hollywood. O ponto de encontro do grupo era a casa do casal, designada de Holmby Hills Rat Pack e de onde advém o nome do grupo, tendo a expressão sido utilizada pela primeira vez por Bacall, após uma noitada de Bogard em Las Vegas com os amigos. Este primeiro grupo incluía ainda: David Niven, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Cary Grant, entre outros.

Com a morte de Bogard no final dos anos 50, o grupo perdeu um dos seus membros mais carismáticos, mas outro assumiu preponderância: Frank Sinatra, que com os seus amigos de Las Vegas constituiu um segundo “Rat Pack”. Embora Bacall fosse a “ponte” que unia os dois grupos, o liderado por Sinatra era bem diferente do primeiro, mas o espírito de camaradagem mantinha-se.

O grupo da década de 60 desempenhou um importante papel no desenvolvimento de Las Vegas, não só pela sua “política” de nunca actuar em locais que descriminassem negros, mas também pelos seus espectáculos. Quando um dos membros do grupo tinha um espectáculo agendado era comum os restantes aparecerem de surpresa e actuarem em conjunto. Esta situação levava a que os espectadores esperassem horas pelos espectáculos, muitas vezes na rua ou na entrada dos hotéis esgotados. A popularidade do grupo permitiu estabelecer Las Vegas com uma das capitais do entretenimento e deu ao grupo um grande poder junto dos casinos e na… política, sendo conhecidas as suas ligações ao ex-Presidente John F. Kennedy.

Para além dos espectáculos, o grupo surgiu também em filmes, sendo possível identificar cerca de 11 onde dois ou mais membros do grupo trabalharam em conjunto:

  • A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1956)
  • Deus Sabe Quanto Amei (1958)
  • Never So Few (1959)
  • Os Onze de Oceano (1960)
  • Sergeants 3 (1962)
  • 4 for Texas (1963)
  • Os Sete Ladrões da Cidade (1964)
  • Divórcio à Americana (1965)
  • Dois Contra o Texas (1966)
  • A Corrida Mais Louca do Mundo (1981)
  • A Corrida Mais Louca do Mundo II (1984)

De todos, Os Onze de Oceano é o filme mais emblemático do grupo, reflectindo a sua imagem irreverente e onde participam todos os membros do grupo, inclusive as actrizes Angie Dickinson e Shirley Maclaine.

Em meados da década de 60, a popularidade do grupo começa a decrescer, resultado da contra-cultura que iria marcar o final dos anos 60 e início dos anos 70. Muito embora o seu declínio, os membros do grupo mantiveram-se unidos e continuaram a participar em espectáculos musicais e em alguns filmes.

A influência do “Rat Pack” foi tal que as suas histórias (muitas delas inventadas) entraram para o folclore da cidade dos sonhos e o grupo ainda hoje é relembrado através de recriações e tributos. Esta popularidade foi acentuada pelo remake de Os Onze de Oceano (Ocean’s Eleven – Façam as Vossas Apostas, realizado em 2001), que popularizou ainda mais a fama à volta do grupo liderado por Sinatra.