Ladrões de Bicicletas (1948)

Segundo filme da trilogia neo-realista de Vittorio de Sica (os restantes são Sciuscià (1946) e Umberto D. (1952), Ladrões de Bicicletas é considerado o expoente máximo do movimento e resulta da colaboração entre o realizador e o argumentista Cesare Zavattini, um dos principais mentores do neo-realismo italiano. Zavattini apresentou o romance homónimo de Luigi Bartolini a De Sica e os dois viram nele a base para mais uma obra sobre a realidade italiana. De todas as adaptações do romance, nenhuma foi tão “desrespeitadora” em relação ao original como a de De Sica e Zavattini, tendo realizador e argumentista transformado a obra numa odisseia carregada de metáforas, em que a bicicleta é o “veiculo” para organizar a narrativa.

O financiamento de Ladrões de Bicicletas revelou-se difícil, particularmente após o falhanço comercial de Sciuscia. Uma das possibilidades de financiamento veio do produtor norte-americano David O. Selznick (E Tudo o Vento Levou), mas na condição de que o protagonista fosse interpretado por… Cary Grant! De Sica não aceitou e eventualmente conseguiu financiamento em Itália, dando, então, inicio ao casting do filme.

Seguindo as regras do neo-realismo, De Sica utilizou actores não profissionais no filme e organizou um grande casting para encontrar os seus protagonistas. No entanto, estes foram descobertos por acaso: Lamberto Maggiorani, que interpreta a personagem de Antonio Ricci, foi descoberto quando acompanhava os seus dois filhos ao casting para o personagem de Bruno Ricci e Enzo Staiola foi descoberto entre a multidão, que assistia ao primeiro dia de filmagens, nas ruas de Roma. Embora não tivessem nenhuma experiência como actores, Maggiorani e Staiola têm excelentes interpretações, muito devido às indicações do realizador, que contou com a sua experiência de actor (De Sica iniciou a sua carreira cinematográfica como ídolo de matines) para “moldar” os seus protagonistas.

Ao contrário do que seria de esperar, a rodagem de Ladrões de Bicicletas foi bastante elaborada e envolveu uma considerável equipa de profissionais. O generoso orçamento permitiu cenas em grande escala, centenas de figurantes e até o equipamento necessário para produzir chuva artificial. Como exemplo, refira-se que uma das principais cenas do filme (o roubo da bicicleta) envolveu seis câmaras a filmarem simultaneamente. Esta grandeza e planeamento “chocavam”, de acordo com alguns críticos, com os princípios de verdade do neo-realismo. No entanto, o movimento não defendia a falta de argumento ou estilo, bem pelo contrário.

Muito embora, De Sica se revele um extraordinário e inventivo realizador, fazendo de Ladrões de Bicicletas um filme completamente oposto ao de uma produção de Hollywood, a verdade é que as maiores influências do realizador são americanas: King Vidor e Charlie Chaplin. Essa influência deve-se ao recorrente tema da classe trabalhadora, que percorre a filmografia de ambos os realizadores americanos. É visível a influência de ambos no trabalho de De Sica e o trabalho deste, em particular Ladrões de Bicicletas, é uma homenagem a eles, nomeadamente a Chaplin, que era também um confesso admirador do realizador italiano.

Com Ladrões de Bicicletas e a filosofia neo-realista, De Sica propôs-se fazer um dos melhores filmes do mundo à época, mas o público e a crítica italiana não aceitaram bem o filme, criticando a visão pessimista do realizador. No entanto, o filme foi aclamado internacionalmente, tendo ganho um Óscar honorífico para melhor filme estrangeiro e foi eleito, em 1952, o melhor filme de todos os tempos, na primeira sondagem internacional da conhecida revista britânica Sight & Sound. A sondagem é realizada a cada dez anos e desde então Ladrões de Bicicletas é presença regular na listagem. O sucesso internacional fez com que o filme fosse distribuído uma segunda vez em Itália, mas, mais uma vez, revelou-se um fracasso.

Expoente máximo do neo-realismo, Ladrões de Bicicletas é muito mais do que o movimento e a época em que se enquadra, revelando qualidades e uma frescura, ainda hoje, que o elevam e fazem dele uma referência na história da sétima arte.


Ladri di Biciclette
Produzioni de Sica. Itália, 1948, 93 min, drama. Realizador:Vittorio De Sica. Argumento: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Suso Cecchi d’Amico, Oreste Biancoli, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri; baseado no romance de Luigi Bartolini. Actores:Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari

Antonio Ricci e o seu filho percorrem a cidade de Roma à procura da sua bicicleta, que foi roubada e de que necessita para trabalhar.