Matou! (1931)

Matou! é um dos marcos da sétima arte e o melhor exemplo do expressionismo alemão. Obra do realizador Fritz Lang, o filme foi o percursor de muitos elementos e técnicas que hoje são comuns e estabeleceu as regras em vários géneros cinematográficos, nomeadamente do film noir.

Antes de mais, Matou! é um espelho da sociedade alemã da década de 30 e baseia-se na história verídica de Peter Kurter (“O Monstro de Dusseldorf”), um caso verídico que abalou a Alemanha na época. Lang queria escrever um argumento sobre crime e acabou por decidir que o assassínio de crianças era o mais horrendo de todos. A Alemanha tinha sido abalada, na década de 20, por um conjunto de crimes em série, entre eles o de Kurter e Lang viu nele a inspiração para a personagem de Hans Becrert. Lang e a sua esposa Thea Von Harbou, na altura já numa fase descendente do casamento, avançaram para a escrita do argumento, tendo investigado pormenorizadamente o caso: o método de investigação da polícia, os relatórios dos psiquiatras que acompanharam os casos, os locais do crime, tudo foi estudado pelo casal.

O título original do argumento era “Assassinos entre Nós”, frase retirada de uma das edições da publicação da polícia dedicada ao “Monstro de Dusseldorf” mas Lang viu-se forçado a mudá-lo porque os oficiais nazis assumiram que o título era uma referência a eles. Por esta altura, o Partido tinha cada vez mais força e, muito embora a censura não tenha levantado problemas em relação ao filme, os nazis cedo descobriram o passado judeu do realizador. A admiração de Hitler por Metropolis levou Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, a oferecer o título de realizador oficial do partido, cargo que o realizador recusou ao fugir do país, deixando para trás a sua esposa, que viria a trabalhar para o Partido.

Para interpretar o papel do assassino, Lang e Harbou procuravam um novo rosto e encontraram-no em Peter Lorre. Actor de sucesso no teatro vanguardista berlinense, Lorre tem, em Matou!, o papel da sua vida e cuja imagem nunca mais o abandonaria. Tal interpretação talvez se deva à famosa crueldade do realizador com os seus actores (para a cena do julgamento, Lorre teve de cair uma dezena de vezes das escadas abaixo), mas a verdade é que o filme permitiu ao actor tornar-se uma estrela internacional. Após ter abandonado a Alemanha Nazi, Lorre refugiou-se na Inglaterra, onde trabalhou com Alfred Hitchcock e, posteriormente, em Hollywood, onde participou em filmes como Relíquia Macabra, Casablanca, O Mundo É Um Manicómio, entre muitos outros.

Matou! é constituído por três grandes episódios: no primeiro, Lang introduz o assassino, a vítima e o enquadramento social onde ocorrem os crimes. No segundo episódio, o mais longo, o realizador dá-nos conta dos dois grupos envolvidos pelos crimes: a polícia e o sub mundo do crime. Relatando pormenorizadamente os procedimentos da investigação e os prejuízos causados aos negócios dos criminosos, Lang praticamente não diferencia os dois grupos, numa critica firme à sociedade. O terceiro e último episódio descreve a captura e o julgamento do assassino, onde este se defende perante uma multidão irada.

Rodado em apenas seis semanas, Matou! é o primeiro filme sonoro alemão e, ao contrário do que seria de esperar, o realizador apenas utiliza som em momentos chaves do filme, optando por diálogos gravados sobre a montagem muda e só nos dá a ouvir os sons que ele quer. O som é de tal forma importante, que Lang o utiliza como um elemento narrativo e de desenvolvimento da história: os cânticos das crianças, os gritos dos ardinas e, principalmente, o assobio da canção Peer Gynt, importante na definição do assassino, são excelentes exemplos do génio do realizador. Como curiosidade fica o facto de Peter Lorre não saber assobiar e teve de ser o realizador a assobiar a canção.

Matou! estreou no dia 11 de Maio de 1931, em Berlim, com uma duração de 111 minutos, menos seis que a primeira versão registada no departamento de censura Alemão. Bem recebido por uma plateia entusiasta, o filme acabaria por ser banido pelo Partido Nazi três anos mais tarde e só voltou a ser exibido em 1960, sob o título M – O Teu Assassino Olha Para Ti e mais tarde com o novo título M – Uma Cidade Persegue um Assassino. Esta versão de 1960, com som e sem aprovação do realizador, tinha apenas 99 minutos de duração.

Em 2001, o original de nitrato, na posse do Arquivo Federal de Cinema, em Berlim, serviu de base ao trabalho de restauro do filme, tendo sido utilizados excertos do filme que estavam na posse da Cinemateca Suiça e do Museu de Cinema da Holanda. O trabalho de restauro deu origem a uma nova cópia, em 35mm, com uma duração de 111 minutos. Por sua vez, esta cópia serviu de base para o restauro digital e edição do filme em DVD, em 2003.

Matou! revela, se duvidas houvesse, o enorme talento de Fritz Lang: da extraordinária utilização da câmara, ao som, passando pela descrição narrativa dos procedimentos policiais, o filme abriu novas perspectivas no panorama cinematográfico. A sua originalidade e frescura é tão surpreendente hoje, como o foi em 1931, sendo um dos mais fascinantes exemplos do expressionismo alemão. E o facto de ser um retrato da mente humana, na sua face mais negra, apenas revela a visão de um realizador crítico com a sociedade e que previa o futuro que se desenhou.

M
Nero Film. Alemanha, 1931, 111m, drama
Realizador: Fritz Lang. Argumento: Fritz Lang e Thea von Harbou. Actores: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Gustaf Gründgens, Friedrich Gnass, Paul Kemp Theo Lingen, Ernst Stahl-Nachbaur, Franz Stein, Otto Wernicke. Estreia em Portugal: 10 de Novembro 1931 (S. Luiz)

Um assassino de crianças anda a causar o pânico numa cidade alemã e policias e criminosos tudo fazem para o apanhar.

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