Nos Bastidores de Nova Iorque (1948)

There are eight million stories in the naked city. This has been one of them.

É com esta, já lendária frase, que termina um dos mais extraordinários film noir da história do cinema. Filmado como se de um documentário se tratasse, Nos Bastidores de Nova Iorque tem a particularidade de ser o primeiro filme a “sair” dos estúdios e ter sido rodado totalmente em Nova Iorque. Embora anteriormente alguns filmes tenham sido parcialmente rodados na cidade, a verdade é que, desde o cinema mudo, que a visão dada por Hollywood de Nova Iorque confinava-se aos cenários construídos nos estúdios da meca do cinema.

A ideia de rodar o filme totalmente em Nova Iorque foi do produtor Mark Hellinger, que considerou que filmar uma história de ficção ao estilo de um documentário traria algo de novo ao género. Hellinger começou a sua carreira profissional ligado ao teatro, primeiro como crítico numa obscura publicação, posteriormente como escritor de peças teatrais e mais tarde como actor. Como autor, escreveu também alguns livros e que o levaram a Hollywood, não apenas como mero argumentista, mas como produtor. Nesta qualidade, foi responsável por diversos filmes de série B, mas também por O Último Refúgio, filme que tornaria Humphrey Bogard uma estrela, e Brutalidade, que deu a conhecer Burt Lancaster. Também conhecido pela sua generosidade e energia, Hellinger faleceu aos 44 anos de idade, vítima de um ataque de coração, logo após a antestreia de Nos Bastidores de Nova Iorque.

Tendo por base a investigação da morte de uma modelo, Nos Bastidores de Nova Iorque dá-nos uma visão crua e dura da cidade, a lembrar os trabalhos de WeeGee, fotógrafo nova-iorquino famoso pelas suas imagens da cidade fora de horas. O argumento, inicialmente intitulado Homicide, é da autoria de Albert Maltz, que pouco depois se tornaria um dos “Dez de Hollywood“. Também envolvido nas investigações do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas, esteve o realizador Jules Dassin, acusado de actividades comunistas por um colega de profissão e que se refugiou na Europa, onde casou com a actriz grega Melina Mercouri e onde realizou filmes de sucesso como Never on Sunday e Topkapi.

Educado em Nova Iorque, Dassin começou a sua carreira como actor e posteriormente como escritor e encenador de teatro. Um dos seus trabalhos na Broadway, que se revelou um fracasso comercial, deu-lhe a oportunidade de ir trabalhar para Hollywood, como assistente do realizador Alfred Hitchcock em O Meu Marido é Solteiro. A realização da curta-metragem The Tell-Tale Heart levou-o a assinar contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer, onde realizou seis filmes. Findo o seu contrato com o estúdio, Dassin realizou o duro e sadistico drama Brutalidade. Neste filme, Dassin viria a colaborar com parte da equipa que participou em Nos Bastidores de Nova Iorque: o produtor Hellinger, o director de fotografia William Daniels e o compositor Miklos Rosza.

Com a participação de um conjunto de actores em princípio de carreira (a única “estrela” do filme é Barry Fitzgerald no papel de tenente que lidera a investigação policial), a rodagem de Nos Bastidores de Nova Iorque, foi seguida por milhares de pessoas, quer através dos jornais, quer nas ruas onde o filme foi rodado. O impacto do filme foi tal, que os polícias destacados para proteger a equipa tiveram dificuldades em controlar os diversos problemas que surgiram. Para contornar esta situação, a equipa de produção teve de recorrer a técnicas inovadoras e a alguns truques: novas câmaras com lentes mais poderosas, microfones direccionais, película mais rápida e com maior luminosidade, luzes portáteis que podiam ser ligadas às normais tomadas das casas e esconderam a câmara numa carrinha com vidros escuros de modo a puderem filmar grande parte das cenas de rua sem os nova-iorquinos se aperceberem.

As novas técnicas utilizadas em Nos Bastidores de Nova Iorque, assim como as espantosas imagens da cidade, onde se destacam as do início do filme, valeram a William Daniels um Óscar para a melhor fotografia e fizeram com que Nova Iorque se tornasse num imenso plateau para produções cinematográficas. O sucesso do filme deu origem à série de televisão Naked City, exibida durante 5 anos e rodada também nas ruas de Nova Iorque.


The Naked City
Universal International Pictures. Estados Unidos, 1948, 96m, film noir. Realizador: Jules Dassin. Argumento: Albert Maltz e Malvin Wald. Actores: Barry Fitzgerald, Howard Duff, Dorothy Hart, Don Taylor, Frank Conroy, Ted de Corsia

A morte de uma jovem modelo desencadeia uma investigação policial para encontrar o criminoso.