A Regra do Jogo (1939)

A obra prima do realizador Jean Renoir, considerada por muitos como um dos melhores filmes da história do cinema, é um excelente exercício crítico da sociedade, em particular da forma como o homem se agarra às regras como forma de protecção dele próprio.

Com um tema tão controverso, A Regra do Jogo foi muito mal recebido aquando da sua estreia e o Governo Francês baniu o filme, considerando-o negativo para a moral do país (à beira da guerra). O realizador ficou devastado com tal recepção e remontou o filme (excluindo principalmente as suas próprias cenas), mas o resultado foi um filme menor, ainda mais mal recebido pelo público e crítica. Quando os alemães invadiram França, o filme foi também banido pelo governo nazi, que destruiu grande parte das cópias, e os negativos foram destruídos pelos bombardeamentos aliados, pensando-se que o filme tinha sido perdido para sempre.

A sorte do filme mudou quando dois fãs de Renoir encontraram centenas de caixas que continham fotografias, notas, bandas sonoras, fragmentos e negativos do filme, tendo restaurado este à sua forma original, à excepção de um minuto de diálogo em falta. A nova versão de A Regra do Jogo, que contou com o apoio do realizador, foi apresentado no Festival de Cannes de 1959, tendo sido recebida entusiasticamente e, a partir dai, ganhou um estatuto de culto, sendo, actualmente, um dos expoentes máximos da sétima arte.

Regle du Jeu, La
Nouvelle Edition Française. 1939, França, 110m, drama
Reaizador: Jean Renoir. Argumento: Carl Koch e Jean Renoir. Actores: Marcel Dalio, Nora Gregor, Paulette Dubost, Mila Parély, Odette Talazac, Claire Gérard, Anne Mayen, Jean Renoir

O conde de la Cheyniest organiza uma festa durante um fim-de-semana cujo resultado é uma teia de intrigas amorosas e sociais.

Matou! (1931)

Matou! é um dos marcos da sétima arte e o melhor exemplo do expressionismo alemão. Obra do realizador Fritz Lang, o filme foi o percursor de muitos elementos e técnicas que hoje são comuns e estabeleceu as regras em vários géneros cinematográficos, nomeadamente do film noir.

Antes de mais, Matou! é um espelho da sociedade alemã da década de 30 e baseia-se na história verídica de Peter Kurter (“O Monstro de Dusseldorf”), um caso verídico que abalou a Alemanha na época. Lang queria escrever um argumento sobre crime e acabou por decidir que o assassínio de crianças era o mais horrendo de todos. A Alemanha tinha sido abalada, na década de 20, por um conjunto de crimes em série, entre eles o de Kurter e Lang viu nele a inspiração para a personagem de Hans Becrert. Lang e a sua esposa Thea Von Harbou, na altura já numa fase descendente do casamento, avançaram para a escrita do argumento, tendo investigado pormenorizadamente o caso: o método de investigação da polícia, os relatórios dos psiquiatras que acompanharam os casos, os locais do crime, tudo foi estudado pelo casal.

O título original do argumento era “Assassinos entre Nós”, frase retirada de uma das edições da publicação da polícia dedicada ao “Monstro de Dusseldorf” mas Lang viu-se forçado a mudá-lo porque os oficiais nazis assumiram que o título era uma referência a eles. Por esta altura, o Partido tinha cada vez mais força e, muito embora a censura não tenha levantado problemas em relação ao filme, os nazis cedo descobriram o passado judeu do realizador. A admiração de Hitler por Metropolis levou Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, a oferecer o título de realizador oficial do partido, cargo que o realizador recusou ao fugir do país, deixando para trás a sua esposa, que viria a trabalhar para o Partido.

Para interpretar o papel do assassino, Lang e Harbou procuravam um novo rosto e encontraram-no em Peter Lorre. Actor de sucesso no teatro vanguardista berlinense, Lorre tem, em Matou!, o papel da sua vida e cuja imagem nunca mais o abandonaria. Tal interpretação talvez se deva à famosa crueldade do realizador com os seus actores (para a cena do julgamento, Lorre teve de cair uma dezena de vezes das escadas abaixo), mas a verdade é que o filme permitiu ao actor tornar-se uma estrela internacional. Após ter abandonado a Alemanha Nazi, Lorre refugiou-se na Inglaterra, onde trabalhou com Alfred Hitchcock e, posteriormente, em Hollywood, onde participou em filmes como Relíquia Macabra, Casablanca, O Mundo É Um Manicómio, entre muitos outros.

Matou! é constituído por três grandes episódios: no primeiro, Lang introduz o assassino, a vítima e o enquadramento social onde ocorrem os crimes. No segundo episódio, o mais longo, o realizador dá-nos conta dos dois grupos envolvidos pelos crimes: a polícia e o sub mundo do crime. Relatando pormenorizadamente os procedimentos da investigação e os prejuízos causados aos negócios dos criminosos, Lang praticamente não diferencia os dois grupos, numa critica firme à sociedade. O terceiro e último episódio descreve a captura e o julgamento do assassino, onde este se defende perante uma multidão irada.

Rodado em apenas seis semanas, Matou! é o primeiro filme sonoro alemão e, ao contrário do que seria de esperar, o realizador apenas utiliza som em momentos chaves do filme, optando por diálogos gravados sobre a montagem muda e só nos dá a ouvir os sons que ele quer. O som é de tal forma importante, que Lang o utiliza como um elemento narrativo e de desenvolvimento da história: os cânticos das crianças, os gritos dos ardinas e, principalmente, o assobio da canção Peer Gynt, importante na definição do assassino, são excelentes exemplos do génio do realizador. Como curiosidade fica o facto de Peter Lorre não saber assobiar e teve de ser o realizador a assobiar a canção.

Matou! estreou no dia 11 de Maio de 1931, em Berlim, com uma duração de 111 minutos, menos seis que a primeira versão registada no departamento de censura Alemão. Bem recebido por uma plateia entusiasta, o filme acabaria por ser banido pelo Partido Nazi três anos mais tarde e só voltou a ser exibido em 1960, sob o título M – O Teu Assassino Olha Para Ti e mais tarde com o novo título M – Uma Cidade Persegue um Assassino. Esta versão de 1960, com som e sem aprovação do realizador, tinha apenas 99 minutos de duração.

Em 2001, o original de nitrato, na posse do Arquivo Federal de Cinema, em Berlim, serviu de base ao trabalho de restauro do filme, tendo sido utilizados excertos do filme que estavam na posse da Cinemateca Suiça e do Museu de Cinema da Holanda. O trabalho de restauro deu origem a uma nova cópia, em 35mm, com uma duração de 111 minutos. Por sua vez, esta cópia serviu de base para o restauro digital e edição do filme em DVD, em 2003.

Matou! revela, se duvidas houvesse, o enorme talento de Fritz Lang: da extraordinária utilização da câmara, ao som, passando pela descrição narrativa dos procedimentos policiais, o filme abriu novas perspectivas no panorama cinematográfico. A sua originalidade e frescura é tão surpreendente hoje, como o foi em 1931, sendo um dos mais fascinantes exemplos do expressionismo alemão. E o facto de ser um retrato da mente humana, na sua face mais negra, apenas revela a visão de um realizador crítico com a sociedade e que previa o futuro que se desenhou.

M
Nero Film. Alemanha, 1931, 111m, drama
Realizador: Fritz Lang. Argumento: Fritz Lang e Thea von Harbou. Actores: Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut, Gustaf Gründgens, Friedrich Gnass, Paul Kemp Theo Lingen, Ernst Stahl-Nachbaur, Franz Stein, Otto Wernicke. Estreia em Portugal: 10 de Novembro 1931 (S. Luiz)

Um assassino de crianças anda a causar o pânico numa cidade alemã e policias e criminosos tudo fazem para o apanhar.

A Ponte do Rio Kwai (1957)

Considerado um dos grandes épicos da história da sétima arte, A Ponte do Rio Kwai é uma batalha psicológica de vontades e, tal como os acontecimentos que a história descreve, também a sua produção se revelou uma verdadeira aventura e o resultado da vontade de um homem: o produtor Sam Spiegel.

Em 1954, Spiegel encontrava-se na Europa para a estreia de Há Lodo no Cais, quando, em Paris, tomou conhecimento do livro A Ponte do Rio Kwai, do escritor francês Pierre Boule e resolveu comprar um exemplar para ler na sua viagem para Londres. Spiegel ficou tão impressionado com a história, que adquiriu os seus direitos assim que lhe foi possível, contratando de seguida os argumentistas Michael Wilson e Carl Foreman para escrever o argumento (Wilson e Foreman pertenciam à lista negra do Comité de Investigação de Actividades Anti-Americanas e é Boule, que não sabia uma única palavra de inglês, que surge na ficha técnica do filme como o autor do argumento).

A múltipla nacionalidade dos diversos personagens levou Spiegel a viajar um pouco por todo o mundo para encontrar os vários actores e só no final de 1956 é que conseguiu contratar as duas estrelas do filme: William Holden e Alec Guiness. Se Holden, na altura o actor mais popular de Hollywood, facilmente aceitou participar no filme, já Guiness deu mais trabalho para contratar: o actor inglês era mais conhecido pelos seus papéis cómicos e não se via no papel do austero Coronel Nicholson, mas Spiegel sabia o que queria e, após um jantar entre os dois, Guinesess acedeu a participar no filme. Os restantes actores foram relativamente fáceis de contratar e Spiegel, de forma a conferir autenticidade aos personagens, contratou actores tailandeses, japoneses e, para chefe da aldeia, um herói da resistência, que durante a guerra ajudou a salvar vários militares dos japoneses.

Com a escolha de actores definida, Spiegel, que entretanto escolhera David Lean para realizador, parte para a Ásia para, em conjunto com o realizador e com o director de fotografia Jack Hildyand, resolverem outro problema: o local das filmagens. A história do filme tem por base o “Caminho-de-ferro da Morte”, uma linha que atravessava a Birmânia, Malásia e Sião, mas todos estes países levantavam problemas para a grande produção e tornava-se difícil o transporte de pessoas e equipamento. Após muitos quilómetros percorridos, Spiegel e Lean encontraram o local perfeito: Ceilão (actual Sri Lanka), uma ilha com 8 milhões de habitantes e com as condições perfeitas. Os habitantes da ilha revelaram-se excelentes colaboradores e alguns serviram de figurantes, contribuindo para as 37 nacionalidades representadas no elenco.

A equipa de produção passou perto de um ano no Ceilão, tendo iniciado a construção da ponte, na altura um dos maiores cenários alguma vez construídos para um filme, na Primavera de 1956. Durante os 8 meses da sua construção foram gastas 1.500 árvores gigantes e necessários 48 elefantes para transportar a madeira. A ponte, construída a partir de um esboço de guerra, tinha 130 metros de comprimento e 90 de altura, tendo custado cerca de 250 mil dólares.

As filmagens tiveram início a 1 de Outubro de 1956 e durante os 8 meses que duraram, a produção foi assolada por um conjunto de acidentes, entre eles um desastre de automóvel, que provocou um ferido e a morte de um assistente de realização, e um outro, que quase ia destruindo a ponte. Para além destes acidentes, os figurantes, muito embora as boas condições existentes, foram vítimas do calor e alguns deles sofreram insolações. Mas dos muitos problemas que a produção teve de enfrentar o mais curioso foi o da água do rio, que num dia estava verde e no dia seguinte, devido a uma tempestade nocturna, ficou amarela do lodo. A produção resolveu o problema deitando tinta verde para a água.

Os problemas não se ficaram por aqui e até a necessidade de ver as cenas filmadas constituiu uma dor de cabeça: como não era possível revelar película no Ceilão, o material filmado era enviado para Londres por avião e depois devolvido para que Spiegel e Lean pudessem decidir se era necessário filmar novamente alguma cena.

O momento mais intenso da produção foi o da filmagem da destruição da ponte: o trabalho de 8 meses acabaria por ser destruído em poucos segundos. Inicialmente prevista para 1 de Março de 1957, a cena, filmada por 6 câmaras, foi adiada para o dia seguinte devido a um erro de um dos operadores de câmara. No dia seguinte, a cena foi filmada sem nenhum percalço e as bobines de filme foram enviadas para Londres em três aviões diferentes, para que pelo menos uma chegasse em boas condições.

Com um custo total de 3 milhões de dólares, A Ponte do Rio Kwai estreou a 18 de Dezembro de 1957, tendo sido o campeão de bilheteira desse ano com um total de 27 milhões de dólares de receita. Para além do sucesso comercial, o filme foi também um sucesso de critica e arrecadou sete óscares, entre eles o de melhor filme, melhor realizador, melhor actor (Guiness) e melhor argumento.

A Ponte do Rio Kwai é um soberbo exemplo da qualidade do trabalho de Sam Spiegel, que conseguiu reunir esforços e talentos para construir um confronto psicológico entre dois símbolos de culturas diferentes, mas que partilham a mesma maneira de ser. Quer pelas suas qualidades artísticas, quer pela envolvência da sua produção, A Ponte do Rio Kwai tem um lugar especial na história da sétima arte.

The Bridge on River Kwai
Columbia Pictures. GB / EUA, 1957, 161m, guerra
Realizador: David Lean. Argumento: Michael Wilson e Carl Foreman, baseado no romance de Pierre Boule. Actores: William Holden, Alec Guinness, Sessue Hayakawa, Geoffrey Horne, James Donald, Percy Herbert, Ann Sears

Soldados britânicos presos num campo de concentração japonês são obrigados a construir uma ponte sem saber da existência de uma missão dos aliados para destruírem essa mesma ponte.