Pamplinas Maquinista (1927)

O mais famoso filme do actor cómico Buster Keaton tem por base o livro Daring and Suffering: a History of the Great Railway Adventure, publicado em 1863 e republicado anos mais tarde sob o novo título The Great Locomotive Chase. O seu autor, William Pittinger foi um sobrevivente do assalto a uma locomotiva, de nome The General (O General), realizado por um grupo de soldados unionistas, no estado norte-americano da Geórgia. O livro é precisamente o relato desse assalto, que tinha por objectivo destruir as linhas de comunicação (linhas férreas, postes de telegrafo e pontes) para enfraquecer o inimigo. Caso o plano tivesse sucedido, a guerra civil americana teria acabado mais cedo, mas o assalto acabou em desastre quando a tripulação da locomotiva perseguiu os assaltantes e os interceptou: nove foram presos e os restantes acabaram por ser enforcados. Buster Keaton achou a história brilhante e decidiu adaptá-la ao grande ecrã (apenas transformando o herói em sulista) fazendo de Pamplinas Maquinista, um dos seus filmes mais pessoais.

Keaton nasceu no meio de uma família de comediantes e cedo começou a fazer parte das actuações do grupo famíliar. Quando este se desfez, Keaton teve a oportunidade de trabalhar com o comediante Fatty Arbucke num dos seus filmes e ai nasceu o fascínio de Keaton pelo cinema. A relação entre os comediantes floresceu e os dois realizaram cerca de 15 comédias, de duas bobines, entre 1917 e 1920. Posteriormente, Keaton teve a oportunidade de gerir o seu próprio estúdio e ai realizou diversas comédias de curta e longa duração, entre elas Pamplinas Maquinista.

A rodagem do filme decorreu no estado de Oregon, onde Keaton construiu o grandioso cenário (incluindo a ponte para a cena final, na altura, a mais cara alguma vez filmada), tendo sido necessário contratar 500 membros da Guarda Nacional, várias locomotivas de grande porte e transportar, de Los Angeles, 18 vagões de equipamento. O filme “traduz-se” numa longa perseguição e grande parte das cenas foram filmadas com uma câmara montada num carro que acompanhava a acção numa linha paralela. O filme vive essencialmente das peripécias de Keaton, que se tornam ainda mais impressionantes pelo facto do actor as interpretar ele mesmo, tendo, ao longo da sua carreira, dispensado sempre a utilização de duplos. Ao contrário de Chaplin, cujo humor é mais intimista, Keaton sempre teve um fascínio pela grandiosidade e Pamplinas Maquinista é um dos melhores exemplos disso: a utilização de grandes locomotivas como cenário da acção, os grandes planos sobre a paisagem e mesmo a recusa de Keaton em utilizar close-ups sobre si, são elementos típicos dos seus filmes.

Pamplinas Maquinista estreou nos Estados Unidos a 5 de Fevereiro de 1927 e foi um fracasso de bilheteira. Este fracasso prejudicou a carreira de Buster Keaton, que nunca mais gozou da mesma liberdade criativa e após dois ou três filmes como actor principal, teve de se contentar com papéis secundários e papéis em filmes de baixo orçamento, o que lhe trouxe problemas na sua vida pessoal, como o divórcio e o alcoolismo. Mas o tempo veio a fazer-lhe justiça e Pamplinas Maquinista é, hoje, muitas vezes citado nas listas dos melhores filmes da história do cinema. A sua mais valia é o humor físico de Keaton, o ritmo impressionante da acção (estamos a falar de um filme mudo de 1927) e uma história bem estruturada e interessante. Indispensável para os amantes da sétima arte.

Pamplinas Maquinista estreou em Portugal em 1929, na altura sob o título Glória de Pamplinas. No entanto, o filme foi re-batizado em 1965 para o título actual, quando foi novamente exibido nas salas de cinema.

The General
Buster Keaton Productions, United Artists. EUA, 1927, 75m, comédia
Realizador: Buster Keaton. Argumento: Clyde Bruckman e Buster Keaton. Actores: Buster Keaton, Marion Mack, Charles Smith, Frank Barnes, Joe Keaton. Estreia em Portugal: 11 de Fevereiro 1929 (Tivoli)

Durante a Guerra Civil Americana, espiões unionistas roubam uma locomotiva com o objectivo de destruir as linhas de comunicações inimigas, mas têm de enfrentar o condutor da locomotiva que a tenta recuperar.