Revolta da Bounty (1935)

Revolta da Bounty é um dos grandes clássicos da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), sendo baseado na verdadeira viagem do barco H.M.S. Bounty, em 1787. A história foi romanceada por Charles Nordhoff e James Norman Hall, que escreveram três livros sobre os acontecimentos, o primeiro em 1932 e os restantes em 1934. Embora a história do Bounty tenha sido contada primeiro num filme mudo australiano de 1916, são os romances de Nordhoff e Hall que servem de base ao filme da MGM. No entanto, o filme não é a primeira a adaptação dos livros ao cinema: em 1933, Errol Flynn estreou-se no cinema ao protagonizar o herói Fletcher Christian, na produção australiana In the Wake of the Bounty.

Esta versão de 1935 começou a tomar forma quando o realizador Frank Lloyd adquiriu os direitos dos romances de Nordhoff e Hall com o objectivo de realizar o filme e interpretar o vilão da história. No entanto, quando vendeu os direitos à MGM, o responsável de produção do estúdio, Irving Thalberg, convenceu-o apenas a realizar o filme. Para interpretar o herói da história, Thalberg tinha em mente Clark Gable, uma das estrelas do estúdio, mas que, quando foi abordado, revelou muita relutância em participar no filme. Para além de não gostar de interpretar personagens de época, outra das resistências de Gable tinha a ver com a sua imagem de galã: para além de considerar que as roupas eram demasiado femininas, o actor não queria cortar o seu bigode, que era uma das suas imagens de marca (pelo facial era proibido pela marinha inglesa à época dos acontecimentos). Depois de muita insistência, Thalberg conseguiu convencer Gable, prometendo-lhe, caso Revolta da Bounty não fosse o filme de maior sucesso do actor, que nunca mais voltaria a insistir em que participa-se num filme que o actor não quisesse.

Uma vez que o argumento, a pedido de Thalberg, se centrava na relação conflituosa entre Fletcher Christian e o capitão Bligh, Thalberg apostou num actor que tivesse uma relação menos amistosa com Gable, para que o filme ganha-se com esse conflito. O primeiro actor em que Thalberg pensou foi Wallace Beery, mas este não quis passar o longo tempo das filmagens ao lado de Gable e recusou a proposta da MGM. Thalberg apostou, então, no actor inglês Charles Laughton, cuja homossexualidade confrontava a homofobia de Gable. Para complicar ainda mais a relação entre os dois actores, Laughton não gostava de Gable, pelo facto de este lhe ter “roubado” o Oscar de melhor interpretação em 1934, por Uma Noite Aconteceu.

Os problemas que ocorreram atrás das câmaras foram tão interessantes quantos os conflitos que o filme relata, não só pela relação conflituosa entre os dois protagonistas, mas também pelos muitos problemas que ocorreram durante a produção. Utilizando mais de 2.500 figurantes, uma extensa equipa técnica e diversas réplicas em tamanho real dos barcos, que tiveram de percorrer milhares de quilómetros até ao local de filmagem, no Taiti, Revolta da Bounty obrigou a uma complexa logística, agravada por diversos acidentes. Entre eles, um que envolveu os barcos na sua viagem até ao Taiti e que obrigou a uma demorada e dispendiosa reparação dos mesmos e o afundamento de um outro barco carregado de material e que provocou a morte de um dos técnicos. Os problemas não se circunscreveram ao local exterior de filmagem e quando a equipa regressou a Hollywood, deram conta que a película utilizada estava estragada, devido à más condições em que tinha sido armazenada. Houve, assim, a necessidade de filmar novamente as cenas e para não enviar actores e equipa técnica de volta para o Taiti, o estúdio decidiu filmar as cenas na Ilha de Catalina, ao largo de Los Angeles, o que prolongou a produção por mais quatro meses.

Com todos estes problemas, Revolta da Bounty custou cerca de 2 milhões de dólares, o maior orçamento da MGM desde Ben-Hur (1925), e levantou muitas dúvidas aos responsáveis do estúdio quanto à sua rentabilidade. No entanto, o filme revelou-se um verdadeiro sucesso de bilheteira, tendo sido um dos filmes mais lucrativos da década de 1930. Foi também um sucesso de crítica, com 8 nomeações para os Óscares, saindo vencedor na categoria de melhor filme. Três das nomeações do filme foram para melhor interpretação, tendo levado a Academia de Ciências a introduzir, no ano seguinte, as categorias de melhor actor secundário e melhor actriz secundária.

A interessante história original e o sucesso de Revolta da Bounty levantaram a possibilidade de diversas sequelas ao longo dos anos, mas o que viria a ser produzido, em 1962, foi um remake. Interpretado por Marlon Brando e Trevor Howard e também designado por Revolta da Bounty, o remake foi um verdadeiro fracasso de bilheteira e levou ao declínio da carreira de Brando. Em 1984, Mel Gibson e Anthony Hopkins participaram em The Bounty, não um remake, mas um filme baseado num outro livro sobre os mesmos acontecimentos.

O facto de Revolta da Bounty se manter como o mais conhecido de todas as versões cinematográficas da história, ter elevado o estatuto de estrela de Clark Gable e ter marcado a carreira de Charles Laughton, que ficou conhecido pela personagem que interpretou, são bons exemplos da qualidade do filme. Como curiosidade refira-se o facto de Revolta da Bounty ter como figurantes duas caras conhecidas: James Cagney, que participou no filme para ganhar dinheiro extra, uma vez que estava suspenso pela Warner Bros. na altura, e David Niven, um jovem na altura e em inicío de carreira.

Mutiny on the Bounty
Metro-Goldwyn-Mayer. Estados Unidos, 1935, 132 min., drama
Realização: Frank Lloyd. Argumento: Talbot Jennings, Jules Furthman, Carey Wilson, baseado nos livros de Charles Nordhoff e James Norman Hall. Interpretação: Charles Laughton, Clark Gable, Franchot Tone, Herbert Mundin, Eddie Quillan.

A tripulação do H.S.M. Bounty revolta-se contra o tirano capitão do barco.