Aurora
Sunrise
Fox Film Corporation
EUA, 1927, 95m, drama
Realizador: F.W.Murnau
Argumento: Carl Mayer, Katherine Hilliker e H.H. Caldwell, baseado no romance “Die Reise nach Tilsit” de Hermann Sudermann;
Actores: Geroge O’Brien, Janet Gaynor, Margaret Livingston, Bodil Rosing
Uma mulher da cidade seduz um camponês e convence-o a matar a esposa.
A reputação de F.W. Murnau como um dos expoentes máximos do expressionismo alemão e o sucesso nos Estados Unidos de Fausto (uma das mais emblemáticas produções de Murnau para a UFA), levaram William Fox a convidá-lo para realizar o primeiro filme da sua nova empresa: a Fox Film Corporation, que mais tarde viria a dar origem à 20th Century Fox. Embora produzido em Hollywood, Aurora foi planificado na Alemanha e foi o primeiro filme com som gravado na própria película (embora sem diálogos, o filme contem uma banda sonora sincronizada com a acção).
Aurora estreou três dias antes de The Jazz Singer, o primeiro filme sonoro a chegar às salas de cinema, e foi completamente ofuscado por este. A mais cara produção de Fox tornou-se, assim, num fracasso comercial, a que também não foi alheia a má opinião da crítica na altura.
Baseado na novela Die Reise Nach Tilsit (A Viagem da Tilsit) do romancista Herman Sudermann e com argumento do austriaco Carl Mayer, Aurora tem por base uma história simples, mas poderosa onde predominam as dicotomias: dia/noite, nascer do sol/pôr-do-sol, bom/mau, campo/cidade, corrupção/pureza, sol/lua, pecado/redenção. Estes elementos temáticos são enfatizados por um sofisticado uso da luz e das sombras e por movimentos de câmara únicos e “impossíveis” à época. Com a colaboração dos directores de fotografia Charles Rosher e Karl Staruss, Murnau deu “vida” à câmara, anteriormente um elemento pesado e estático, e influenciou gerações futuras (pode-se ver essa influência em O Denunciante, de John Ford, e em O Mundo a Seus Pés, de Orson Welles). O pioneirismo de Murnau não se limitou ao movimento de câmara, o realizador foi mais longe e criou efeitos especiais únicos, utilizando a técnica de super imposição (na própria câmara) para criar momentos dramáticos únicos.
A história da sétima arte está cheia de exemplos onde os efeitos especiais, nomeadamente nos modernos blockbusters, são a única mais valia dos filmes; Aurora é precisamente o contrário: Murnau utiliza os efeitos especiais para enfatizar o drama, conseguindo utilizar técnicas inovadoras (à época) de uma forma eficaz e que contribuem para o desenvolvimento da história.
É esta componente visual que torna Aurora único e um marco importante na história do cinema. Embora o público da época o tenha votado ao esquecimento, a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas reconheceu a qualidade do filme e atribuiu-lhe, na edição de estreia dos Óscares, três prémios: melhor filme, melhor interpretação feminina e melhor fotografia. O tempo viria a confirmar as qualidades do filme e Aurora é hoje, uma importante obra-prima da sétima arte: não só pelos aspectos visuais e técnicos, mas, essencialmente, como o expoente máximo do cinema mudo, com uma linguagem própria e que é, no seu conjunto uma experiência cinematográfica única.
