Frankenstein
Universal Pictures
Estados Unidos, 1931, 71m, terror
Realizador: James Whale
Argumento: John L. Balderston, Francis Edward Faragoh, Garrett Fort, baseado na peça de Peggy Webling, por sua vez baseada no livro de Mary Shelley
Actores: Colin Clive, Mae Clarke, John Boles, Boris Karloff, Edward Van Sloan, Frederick Kerr, Dwight Frye
Um cientista obcecado cria uma criatura a partir de partes de outros corpos. Quando a criatura ganha vida e mata uma criança, a comunidade local tenta destrui-la.
No final da década de 20, a Universal Pictures, na altura apenas um pequeno estúdio de Hollywood, tinha ganho reputação e sucesso graças a filmes de terror como Nossa Senhora de Paris, The Phantom of the Opera e Dracula. Em particular este último, que fez de Bela Lugosi uma estrela, levou os responsáveis do estúdio a apostar na história de “Frankenstein”, cuja adaptação teatral estava a ser um êxito. O objectivo era sedimentar o sucesso da Universal num género que o estúdio tinha inventado, aproveitando a fama de Lugosi. No entanto, Frankenstein tornar-se-ia muito mais que um filme de sucesso: a imagem do monstro (Frankenstein refere-se ao nome do cientista e não à criatura que este cria) tornou-se num verdadeiro icon, uma “imagem de marca” que tem resistido durante décadas no simbolismo colectivo.
Ao contrário do que os responsáveis do estúdio inicialmente pretendiam, Lugosi acabou por não ser o escolhido para interpretar o monstro, existindo duas versões para tal: a primeira refere que o actor não quis interpretar um personagem que não diz uma única palavra durante todo o filme; a 2ª versão refere que Lugosi não se considerava forte o suficiente para interpretar um personagem tão imponente. Independentemente da versão, a verdade é que o produtor Carl Laemmle Jr. e o realizador James Whale, que tinha, entretanto, substituído o realizador inicial (o francês Robert Florey) não gostaram da audição de Lugosi e Whale optou por entregar a personagem a Boris Karloff.
A escolha de Karloff, então com 44 anos e uma longa carreira por trás, foi bastante acertada, já que a sua interpretação, em conjunto com a imagem do monstro criada pelo chefe do departamento de maquilhagem da Universal Jack Pierce, tornaram a personagem memorável. Ao contrário de outros artistas, que imaginaram o monstro como um robot, extraterrestre ou um louco, Pierce criou a imagem com base em conceitos de anatomia e de forma a torná-lo “humano”. Se a ideia da cabeça achatada foi de Pierce, já outros pormenores se devem a Karloff, nomeadamente os olhos cheios de cera, as roupas curtas e as botas pesadas para dar ao monstro um andar distinto.
Embora a história de Mary Shelley sirva de base à adaptação cinematográfica, Frankenstein difere bastante do original, principalmente devido ao facto de serem meios de comunicação diferentes e terem públicos também diferentes. Enquanto o livro tinha a classe média como destinatário, o filme pretendia atingir todas as classes sociais. Esta diferença fez com que a adaptação cinematográfica fosse desprovida de elementos narrativos contextualizadores, nomeadamente do monstro. Assim, enquanto na história original o monstro demonstra comportamentos humanos, no filme este surge completamente desprovido de sentimentos. Esta situação revela-se com mais evidência na cena da morte da menina. Para acentuar a diferença, muito contribuiu o facto de a censura ter exigido que parte da cena fosse cortada das cópias distribuídas a partir de 1937. Quer o produtor, quer o realizador concordaram com o corte, mas Karloff ficou bastante descontente, já que retirava, na sua opinião, o único momento em que o público conseguia ter alguma empatia com o monstro.
A intervenção da censura nos Estados Unidos não surpreendeu o estúdio, já que o tema, só por si, já era suspeito de levantar problemas. Se numa primeira distribuição, em Novembro de 1931, o organismo de censura nacional não levantou nenhuma questão, já os organismos de censura de vários estados exigiram cortes para que o filme fosse exibido. Tal como em Inglaterra, onde o filme foi exibido sem três importantes cenas. Muito embora toda a controvérsia, esta não impediu que o filme fosse um sucesso junto do público: com um orçamento de $262 mil dólares, Frankenstein arrecadou cerca de $12 milhões, fazendo dele um sucesso ainda maior que Dracula e instituindo o monstro como um verdadeiro icon mundial.
Este texto faz parte da série dedicada aos filmes produzidos pela Universal Pictures durante a década de 30 e 40, que têm o monstro criado pela escritora Mary Shelley como protagonista. Os restantes filmes são A Noiva de Frankenstein (1935), O Filho de Frankenstein (1939), O Fantasma de Frankenstein (1942), Frankenstein Meets the Wolf Man (1943).
