A história da 20th Century Fox, no seu 75º aniversário

Matar ou Não Matar

In a Lonely Place
Santana / Columbia Pictures
EUA, 1950, 89m, film-noir
Realização: Nicholas Ray
Argumento: Edmund H. North, Andrew Solt e Nicholas Ray; baseado no livro de Dorothy B. Hughes
Actores: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid, Martha Stewart

Um argumentista de Hollywood é acusado da morte de uma rapariga e o seu único alibi é o testemunho de uma vizinha por quem se apaixona.

Matar ou Não Matar basea-se no livro com o mesmo nome escrito por Dorothy B. Hughes e a sua história, contada na perspectiva de um brutal assassino em série, estava longe de atrair a atenção de Hollywood. Após 15 anos sob contrato na Warner Bros., Humphrey Bogard queria um maior controlo sob as personagens que interpretava e aproveitou o papel de Dixon Steele para remar contra o sistema.

O contrato que Bogard tinha com a Warner permitia-lhe participar num filme por ano fora do estúdio e o actor decidiu participar no filme que ele próprio produziu através da sua produtora independente, a Santana Pictures, cujos filmes eram distribuídos pela Columbia Pictures. O presidente da Warner, Jack Warner, detestava a produtora de Bogard, porque, dizia, reflectia o aumento de poder dos actores dentro da indústria cinematográfica. Bogard, com a sua atitude anti-sistema, levou para a frente a produtora e aumentou o receio que Jack Warner tinha de que esta situação levaria ao fim de Hollywood.

Para realizar o filme Bogard escolheu Nicholas Ray, que anteriormente tinha realizado a primeira produção da Santana, O Crime Não Compensa. O argumento final, escrito por Andrew Solt e pelo próprio realizador, revelou-se bastante diferente da história escrita por Dorothy B. Hughes. Para muitos historiadores, o papel de Dixon Steele é o mais pessoal que Bogard alguma vez interpretou e reflecte a sua própria personagem: uma pessoa isolada, orgulhosa na sua arte, egoísta e com alguns rasgos de violência. É também uma oportunidade para Bogard expressar a sua opinião sobre uma indústria que fez dele uma das suas estrelas. Através de Dixon Steele, Bogard chega mesmo a mostrar o seu desencanto pela falta de qualidade dos projectos que lhe são propostos e a apelidar um realizador de “fazedor de pipocas”.

Para contracenar ao seu lado, Bogard contratou Gloria Grahame, cujo casamento com o realizador Nicholas Ray terminou durante as filmagens. O papel parece feito à medida de Lauren Bacall, mas a Warner recusou emprestá-la à Santana. A contratação de Grahame deixou o produtor Robert Lord tão nervoso que a actriz teve de assinar um contrato fora do habitual, que incluía causas como a que a obrigava a aceitar a opinião de Ray e a que a proibiam de chatear, provocar ou utilizar qualquer outro truque feminino para distrair ou influenciar o realizador. Muito embora houvesse alguma tensão durante a rodagem, o comportamento de ambos foi sempre profissional e Grahame tem aqui uma das suas melhores interpretações.

Estreado nos Estados Unidos em 17 de Maio de 1950 (e em Portugal quase dois anos e meio depois), Matar ou Não Matar foi visto desde cedo como um filme menor, à semelhança dos restantes filmes que Bogard interpretou e produziu através da sua produtora. No entanto, graças ao posterior estatuto de culto ganho pelo realizador Ray, o filme começou a ser visto de maneira diferente e é, hoje, considerado um importante marco do filme negro e uma das melhores interpretações de Bogard.